O trabalho desempenhado pelo Instituto Biota de Conservação além de revelar números sobre a atividade marinha em Alagoas, torna público a dedicação dos integrantes e externa as dificuldades cotidianas a serem vencidas, como a falta de recursos e de retorno financeiro pelo trabalho desempenhado.

Chegar no Biota não é muito fácil. Localizado no bairro de Riacho Doce, a sede do instituto funciona na rua Santa Joana. Olhando do começo da rua, quem não conhece a localidade vai precisar perguntar a algum morador onde fica o ‘Instituto que cuida de tartarugas’.

Um campo de futebol de terra batida onde já foram realizadas atividades sustentáveis do Biota Futebol Clube encobre a sede e a casa de Bruno Stefanis, fundador da ONG. Andando mais um pouco, avistamos uma placa que dá as boas vindas. O local é de difícil acesso, entre árvores e uma estreita estrada de barro.

O primeiro andar da residência de Silvanilda Marques, irmã de Bruno e atual presidente da ONG, abriga a pequena estrutura para onde são levados os animais resgatados. Uma escada estreita conduz até o espaço que possui quatro cômodos.

Bruno recebeu a reportagem do CadaMinuto e contou um pouco da rotina do local. Atualmente, doze profissionais, entre biólogos e veterinários, estão associados. Como a instituição não recebe apoio de empresas, a receita mensal acaba sendo usada para manter o Biota ‘vivo’.

“Todo mundo paga mensalidade e nós arrecadamos por mês cerca de R$ 120 reais. Usamos esse dinheiro para pagar as despesas. O telefone é rateado. Tem um ponto na minha casa, um aqui e outro na casa da minha irmã. Ela cedeu esta parte da casa para funcionar o Biota. Tudo aqui é uma coisa muito improvisada. Nosso objetivo é crescer e até agora não temos nenhum apoio”, relatou.

 

Fazer ciência com cuspe e barbante

Alagoas possui poucas ONGs que desenvolvem trabalhos voltados para a preservação e conservação do meio ambiente. Dessas, o Biota foi a que ganhou mais destaque pela grande quantidade de resgates executados a espécies marinhas.

Porém, não é tão fácil como se pensa realizar este trabalho. A falta de recurso em caixa impossibilita que as ações sejam realizadas com mais intensidade, ficando muitas vezes restritas às praias da capital.

“Não temos nem carro. Quando recebemos uma ligação informando que um animal foi encontrado, acionamos o Instituto do Meio Ambiente (IMA) e um de nossos voluntários vai até o local junto com a equipe deles. Falta pessoal, carro e gasolina. Se fiscalizássemos da praia do Pontal à Ipioca todos os dias, iriamos encontrar muito mais animais encalhados. Ano a ano essa estatística cresce”, relatou.

Em três anos de existência do Biota, mais de 150 animais foram resgatados. Quase todos acabaram morrendo por falta de estrutura. Quando um animal chega vivo ao Instituto, ele é colocado em uma caixa d’água que é cheia diariamente com água do mar. Um dos voluntários vai até a praia, que fica a 400 metros da sede, buscar água em baldes até encher o recipiente no nível adequado para acomodação do bicho.

“Aqui eles são notificados, para saber sexo, espécie e quais possuem condições de serem soltos novamente. Também montamos uma tenda lá fora [uma laje de pouco mais de 20 m²] e colocamos a caixa d’água. Quando eles precisam tomar banho de sol, retiramos a tenda e depois recolocamos. Eu sempre digo que faço ciência com cuspe e barbante, porque não temos condições de acomodar animais aqui, mas o amor ao trabalho é maior que tudo”, avalia Stefanis.

Trabalho em troca de conhecimento

No começo de março, seis artigos sobre ações desenvolvidas pelos integrantes da ONG foram publicados em um congresso de Zoologia, realizado em Maceió. Entre os temas abordados estavam a incidência de tartarugas de diversas espécies que tiveram presença detectada no litoral alagoano.

As pesquisas foram resultado dos resgates realizados ao longo dos três anos em que o Biota está ativo. Embora não haja capital financeiro para pagar o pessoal engajado ao trabalho da ONG, a grande proposta de se trabalhar no projeto idealizado por Stefanis é ganhar conhecimento, que pode ser revertido em ações em prol do meio ambiente.

“Infelizmente quem trabalha nesse tipo de projeto tem suas contas para pagar. Não dá para chegar no supermercado e dizer que ‘cuida de tartaruguinhas’, porque a coisa não funciona assim”, observa. 

Muitos dos animais resgatados que morrem acabam virando material de estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e outras instituições que cuidam da vida marinha no Brasil. “Boa parte do banco de dados da Ufal nós ajudamos a construir com os animais que coletamos. Também contribuímos com outras ONGs, como o projeto Tamar”, falou.

O bairro de Riacho Doce também já foi objeto de outros projetos paralelos desenvolvidos pelo grupo, mas que foram interrompidos por questões logísticas. Bruno explicou que os voluntários davam noções de preservação do meio ambiente e desenvolvimento sustentável às crianças através do esporte.

Em 2009, o Biota desenvolveu o ‘Minha Escola, Meu Bairro, Nosso Ambiente’, um trabalho com professores e alunos de uma escola de Riacho Doce. Além de conhecer a história do bairro e aprender a importância de valorizar a cultura local, os estudantes recebiam educação ambiental, visitavam mangues e praias da região. Ambos projetos estão parados por falta de recursos.

“Nossa ideia era expandir nossas ações para outros bairros de Maceió, mas não temos recursos financeiros para fazer isso. O pouco tempo que atuamos com essas propostas foi importante para despertar na comunidade a importância de preservar o meio ambiente”, lembrou.