Nas décadas de 60 e 70 os pescadores conseguiam retirar das lagoas Mundaú e Manguaba cerca de 5 mil toneladas de sururu por ano, mas com o passar do tempo a degradação sofrida por elas fez com que esse número caísse gradativamente. Hoje em dia eles dizem que só dá para viver exclusivamente da pesca do molusco na época da Semana Santa, quando o preço do produto sobe de R$ 6 para R$ 10 o quilo em média. Mesmo assim o lucro só vem com muito sacrifício.

O pescador Olíbio Soares representa bem essa realidade. Desde que nasceu, há trinta e dois anos, ele mora à beira da lagoa Mundaú e com tristeza no olhar relembra de um passado onde a água era límpida, a areia clara e dava para pescar o sururu na própria margem. Hoje em dia ele precisa fazer uma viagem de pelo menos trinta minutos, em um barco a motor, até chegar a um dos poucos locais em que o molusco nasceu esse ano.

“Infelizmente estou acompanhando o lugar de onde retiro o sustento de toda minha família morrer. Antes há poucos metros da minha casa eu conseguia pescar muito sururu, hoje o que vejo é areia preta e lixo. Tenho que acordar de 1h da madrugada e seguir de barco até encontrar o sururu, mas a produção caiu muito e tenho que ficar até às 5h ou 6h da manhã mergulhando sem nenhum equipamento até conseguir pescar o necessário para obter o lucro do dia”, disse Olíbio Soares.

Senhor Ivanildo é outro pescador que revela estar cada dia mais complicado achar o molusco. Opinião que parece ser uma unanimidade preocupante entre os pescadores. No dia em que a reportagem do CadaMinuto esteve na lagoa ele saiu em busca do sururu um pouco mais tarde, por volta das 5h da manhã, voltou às 9h com a canoa carregada e um sorriso de quem teve muita sorte.

“Está muito complicado, passei quatro horas lá dentro (da lagoa) e vi outros não conseguirem pegar quase nada. Hoje estou satisfeito, tive sorte. Consigo cerca de R$ 100 com o que pesquei hoje”, revelou o pescador.

 

Atualmente a média anual de sururu retirado da Mundaú e Manguaba juntas fica em torno de 1.500 toneladas. Mesmo com a produção em baixa, só Olíbio emprega cerca de vinte pessoas encarregadas de carregar, cozinhar, peneirar, catar e vender o sururu, entre elas está a manicure Fernanda da Silva. Ela diz que tem dois filhos e não consegue sobreviver com o que ganha com o serviço, então busca no sururu um incremento na renda da família.

“Não estudei, mas tenho que trabalhar e por falta de opção procurei o sururu. O que ganho com ele é pouco, mas já faz diferença”, revelou a manicure.

Se achar e tratar dele até chegar as mãos dos consumidores é complicado, vendê-lo é a parte mais fácil dessa jornada em busca do sustento.  Além de atender o mercado local, o molusco é muito procurado por atravessadores, pessoas que vem até Alagoas para comprá-lo no intuito de revender em outros estados.

A alta procura deixa os pescadores ainda mais tristes em perceber o que deixam de lucrar por não ter o produto para vender. A situação é tão complicada que muitos resolveram segurar a retirada para que tivessem produção durante o período de maior venda, a Semana Santa.

“No ponto em que eu retirava sururu ele acabou em um mês, a gente conteve um pouco a retirada para não acabar de vez e perdemos o lucro da Semana Santa. É complicado perceber que existe procura e por não conseguir atendê-la perdemos um dinheiro tão necessário em nossa renda”, contou o pescador Olíbio revelando em seguida uma situação ainda mais preocupante.

Segundo o pescador, um dos principais motivadores da degradação que atinge as duas lagoas continua sendo o lixo. Ele aponta que a concentração na Mundaú é tão grande que em certos pontos da margem ele já ocupa mais de um metro de profundidade. Outro fator é o assoreamento, mas o que mais preocupa ele e a todos quem retiram dela o sustento é a falta de chuva, que pode provocar a escassez do sururu ano que vem.

“Quando não chove a lama de onde a gente retira o sururu se espalha e o solo fica inapropriado para novos nascimentos. A queda na produção desse ano foi devido a pouca chuva, se continuar assim corre o risco de no ano que vem a gente enfrentar certa escassez”, revelou.

E se essa previsão assusta uma outra, feita pelo mesmo pescador, entristece.

“Meus netos e meus bisnetos não vão conhecer a lagoa Mundaú e sim presenciar o esgoto Mundaú, porque a lagoa está morrendo”, finalizou emocionado.