Há um certo ar purgatorial ao falarmos das mazelas alagoanas como se a nossa genética permitisse herdar o que existe de pior no Brasil.
A situação da saúde pública é um destes problemas.
Sim, é verdade: a falta de saúde ou as condições desumanas de tratamento médico estão espalhadas em todas as regiões brasileiras. O Hospital Federal de Bonsucesso, que registrou a morte de uma criança de três anos aguardando um rim, mostra a nossa disparidade: um país com pesquisas e pesquisadores de referência no planeta, com o maior plano de saúde público do mundo, sem conseguir administrar uma demanda cada vez maior.
O que torna o Hospital Geral do Estado diferente do Hospital Federal de Bonsucesso são as circunstâncias.
Mais de uma vez, a saúde pública alagoana decretou situação de emergência. Permitiu-se a contratação sem licitação; prometeu-se um hospital na parte alta da capital; disse-se que as ambulâncias ajudariam a melhorar o transporte e o tratamento dos casos de urgência e emergência.
Oscips foram contratadas; helicópteros zuniram nos céus, transportando pacientes. E as ações não tiveram perenidade. É como um plano de vacinação: algumas semanas e nada mais.
Pode-se querer explicar a morte da aposentada Edlene da Conceição pela crise na saúde do Brasil. Ou usar um ollhar mais objetivo: os ambulatórios 24 horas não oferecem uma equipe médica mínima; as duas ambulâncias, em um deles, sequer foram acionadas para oferecer o socorro.
E não adianta separar os pobres e os ricos- como se só os pobres procurassem o HGE. Acaso o governador ou o vice tivessem sintomas de infarto, ele morreria também, levando em conta as idênticas condições da dona de casa Edlene.
A saúde pública de Alagoas investe milhões de reais no funcionamento de hospitais, saindo dos cofres do Governo.
Teotonio Vilela Filho e José Thomáz Nonô demonstram, sim, preocupação na área.
Problema é como esta verba é administrada. E se toda ela chega ao paciente que busca o HGE ou a Maternidade Santa Mônica. E não chega.
Todas as manhãs, no PAM Salgadinho, uma fila de ambulâncias de todas as cidades de Alagoas se amontoam, trazendo pacientes abarrotados em leitos. Desde um ferimento no pé até os exames de rotina.
Algumas destas cidades têm unidades de saúde. E elas não funcionam. Por que?
Por que o Hospital de Matriz de Camaragibe, de média complexidade, só serve dipirona e aplica soro?
Seria ele igual ao Hospital de Bonsucesso? Estaria incluso na crise da saúde brasileira?
Não, não está. Somente a dúvida na aplicação do dinheiro federal explica a indecência.
Os 98 leitos do Hospital Universitário não funcionam por não haver funcionários contratados, via federal.
Há quatro anos, a Procuradoria do Trabalho ofereceu uma alternativa: o Governo e a Prefeitura de Maceió assinariam um convênio com o HU. Seriam 98 pessoas atendidas- desafogando o HGE.
Sequer o convênio foi adiante. Não por faltar dinheiro e sim a presença dos secretários de saúde de Maceió e do Estado na procuradoria.
E isto foi antes - bem antes- do corte de R$ 5 bilhões, na saúde, via Governo Federal.
Sim, a saúde brasileira está em crise.
Mas, não é por vivermos em um leprosário que ficaremos igualmente doentes.