O segundo dia de julgamento do caso do assassinato do professor Paulo Bandeira começou com o quarto acusado de participação no crime se entregando à justiça. Marcelo José dos Santos, ex-chefe de gabinete da prefeitura de Satuba, chegou ao Fórum de Maceió e se apresentou ao juiz que preside o júri, John Silas. Ele estava sendo julgado à revelia, já que não havia sido preso anteriormente.
O quarto acusado chegou ao fórum acompanhado do defensor público Marcelo Barbosa. Alegando inocência no caso, o réu foi questionado pela imprensa, o porquê se encontrava foragido, e afirmou que não sabia que a justiça havia decretado sua prisão.
Segundo o acusado, a mudança de endereço pode ter sido um motivo para não receber o decreto de prisão. Ontem, durante o primeiro dia de julgamento, familiares de Marcelo José afirmaram que ele deveria se apresentar, mas estava no aguardo da definição de quem seria o defensor público que atuaria em sua defesa durante o júri.
O julgamento teve início com a primeira testemunha do dia, a professora Nancy Pimentel, que segundo as investigações policiais apontam que ela teria conhecimento sobre o que acontecia no município na época da gestão de Adalberon de Morais.
Antes de ser ouvida, o advogado Welton Roberto, que atua na defesa dos policiais militares Ananias Lima e Geraldo Augusto Santos da Silva, tentou impedir o depoimento de Nancy Pimentel, alegando que a professora havia sido pronunciada no processo e não poderia testemunhar.
No entanto, de acordo com o Ministério Público, não havia provas quanto à participação de Nancy Pimentel e como ela havia sido ‘despronunciada’ no processo, poderia ter ouvida no caso. E mesmo sob o protesto da defesa, o juiz John Silas indeferiu o pedido.
Primeiro dia
Ontem, dia que se iniciou o júri, a primeira testemunha ouvida pelo juiz John Silas – que preside o julgamento – foi a viúva do professor, Cilene Bandeira. Mostrando bastante revolta, a viúva titubeou em apontar para o ex-prefeito como mandante do assassinato de Paulo Bandeira. “Não tenho dúvidas que o mandante de bárbaro assassinato de meu marido foi esse tal Adalberon de Moraes”.
Segundo Cilene, o réu (Adalberon) teria nomeado o esposo para o cargo de supervisor numa tentativa de “calar a boca dele quanto às denúncias de desvio de recursos do Fundeb. Como ele (o professor) não se calou foi automaticamente exonerado de cargo de confiança e a direção da escola inclusive deu férias antecipadas”, falou a viúva.
Ainda durante o depoimento, a viúva relatou que todas as noites o professor chegava por volta da meia noite em casa. “Na noite do crime eu dormi e quando acordei por volta das 5h e vi que ele não estava em casa fui com meu cunhado a Satuba. Desde então começou o desespero. Quando estive na escola achei estranho quando até o porteiro se referia a meu esposo como alguém que trabalhou na escola, se referindo sempre no passado. Parecia que toda a cidade sabia do acontecido”, afirmou Cilene.
A viúva lembrou ainda que na época, o clima de tensão era visível na cidade de Satuba. Vários professores não puderam comparecer ao enterro, nem à missa de 7º Dia com medo de sofrer represálias por parte da direção da escola e da prefeitura.
Outro depoente foi o irmão da vítima, o também professor João Bosco Bandeira. Em sua fala, por diversas vezes citou o nome da ex-diretora da Escola José da Silva Costa, onde o professor Paulo Bandeira lecionava na época do crime. Ao descobrir o desaparecimento do irmão, João Bosco chegou a ir à escola, mas foi informado pela diretora que Paulo Bandeira não havia trabalhado no dia anterior.
No entanto, o fato que mais chamou atenção foi quando a família do professor se dirigiu à delegacia da cidade para prestar queixa do desaparecimento. Para surpresa de todos, Nanci também apareceu no local com a ‘desculpa’ de querer prestar queixa sobre o roubo de um aparelho eletrônico. “Naquela hora eu tive a certeza de que ela estava ali para saber sobre o que a gente estava falando do desaparecimento do meu irmão”.
No depoimento, Bosco ainda afirmou que a garrafa de álcool encontrada próximo ao corpo da vítima era do mesmo lote comprado pela prefeitura. “A Polícia comprovou pelo código de barras que a garrafa foi comprada pela prefeitura e que tinha sido distribuída para a escola José da Silva Costa”, completou.
Os réus
Adalberon de Morais Barros, acusado de autoria intelectual, quando do crime, acontecido em 2 de julho de 2003, ocupava o cargo de prefeito de Satuba. Na carta deixada pela vítima existia a denúncia de desvio de recursos oriundos do Fundeb pelo gestor do município. A esposa do professor chegou a declarar em juízo que estaria recebendo ameaças do então prefeito.
Sob a acusação de autoria material estão Geraldo Augusto Santos da Silva e Ananias Oliveira Lima que eram responsáveis pela segurança particular do ex-prefeito Adalberon Morais e de seu filho. Denúncias apontam ambos como os executores.
Considerado um ‘homem’ da confiança do prefeito, Marcelo José dos Santos, teria ido à escola onde trabalhava a vítima a fim de verificar os horários de trabalho para melhor arquitetar o plano.
O crime
Relatórios apontam que o professor Paulo Bandeira teria sumido logo após ir à sede da Prefeitura de Satuba. Depois de ficar desaparecido por dois dias, o seu corpo foi encontrado carbonizado, num local de difícil acesso, nas proximidades da cidade.
A vítima estava carbonizada e foi encontrada dentro de seu carro, um veículo Gol, com os membros inferiores, tórax e pescoço imobilizados por correntes. O corpo só pode ser reconhecido após exame de DNA.
Após relatar a denúncia do mal uso dos recursos do Fundeb pelo gestor da municipalidade, a vítima teria confessado seu temor a sua esposa e ainda deixado uma carta e uma gravação de áudio.
