Na semana de eleição do Papa Francisco e em mais uma turbulenta indefinição sobre o futuro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara com o deputado Marco Feliciano- racista e homofóbico- há de se perguntar: qual Jesus é pregado pelos dois lados?
 
É quase impossível imaginar que Jesus fosse eleito Papa. Ou mesmo participasse de um conclave. No século 12, os franciscanos também baniram Francisco de Assis da ordem criada por ele mesmo.
 
Afinal, se Jesus não tinha nada, porque a ordem tinha de ter alguma coisa? 
 
Como Francisco fez na Itália, Jesus percorreu a Palestina a pé, por mais de uma vez. Estima-se que, naquela época, a Palestina tivesse 240 quilômetros.
 
Ali, Jesus era médico e professor. Médico por libertar o homem da própria ignorância, através do conhecimento; professor por ensinar a igualdade- o valor de si mesmo e do outro.
 
Quem atiraria a pedra na mulher flagrada em adultério- um crime punido com pena de morte?
 
Jesus também não. Era professor. 
 
O que Zaqueu- o rico e sanguinário cobrador de impostos- ofereceria àquele pacifista, trazendo a espada e não a paz, tornando-se exemplo de si mesmo?
 
Era Jesus-médico.
 
Talvez comparar o papa Francisco ao Francisco de Assis seja mais essa tentativa de unir o espetáculo midiático ao sonho da Igreja que adotou a impunidade como regra.
 
Impunidade não é perdão. É omissão.
 
O Francisco da Itália tornou-se conhecido não só pela ausência de bens materiais ou uma simplicidade quase mendiga em se vestir. E sim pela coragem de enfrentar o desprezo dos cardeais do Vaticano por ele mesmo (ao mostrar que a Igreja amoedada e vitoriosa nas cruzadas estava em ruínas), ao mesmo tempo pregando em praça pública, em meio a pedradas, pauladas e jejuns extenuantes.
 
Ninguém receberia aquele homem roto, descalço e maltrapilho em Roma.
 
Apenas um. Francisco de Assis teve o aval do durísimo papa Inocêncio III para fundar a sua ordem-a dos Frades Menores.
 
E o Papa- o homem mais poderoso do Ocidente- morreu nu, vítima da peste. 
 
No velório dele, apenas o Francisco de Assis, que também ficou nu e vestiu o Papa, tornando-o franciscano.
 
Usando Jesus, o deputado Marco Feliciano evoca a eugenia para mostrar que negros e homossexuais sequer deveriam existir.
 
Não é moralismo bíblico. É proto-nazismo, uma patologia fartamente descrita no livro Minha Luta, de Hitler. 
 
Ao rasgar os estatutos da igualdade, o deputado mostra que os partidos políticos- e não apenas o PSC- escalam meteoros para puxar votos no sistema proporcional. Eleitos, mostram que o mundo do crime não é imoral. Apenas tem uma ética própria. 
 
O que pensaria Feliciano se soubesse que Jesus era negro?
 
Talvez o mesmo que a Igreja do Francisco 2.0: lavaria as mãos para retirar o pretume e abafar o silêncio da Igreja argentina, às vítimas da ditadura militar.