A Fifa já cancelou copas do mundo por causa de guerras, como nos anos de 1940, ou por terremotos, como na Colômbia em 1986. Mas agora está sendo pressionada a mudar seu principal torneio por conta de corrupção. A Copa do Mundo de 2022 será realizada no Catar e tanto o governo árabe quanto a Fifa insistem que não há qualquer chance de que isso seja revisto.
Mas a pressão sobre a entidade apenas aumenta e abre um período de ataques, especulações e denúncias que colocam em questão a sobrevivência do Mundial que ocorrerá em uma década. A candidatura do Catar foi a que teve o pior desempenho técnico entre os países que se apresentaram para sediar o evento de 2022. Mesmo assim, levou a Copa e obrigou a Fifa a refazer todos seus critérios sobre um país candidato. Os 64 jogos ocorrerão em um local pouco maior que o Distrito Federal, sem tradição no futebol e com uma temperatura do deserto do Oriente Médio, podendo chegar a 45 graus.
Mas foram as revelações que a vitória e os votos poderiam ter sido comprados que mais ameaçam o torneio. Oficialmente, a Fifa garante que não tem nenhum plano de cancelar a votação e escolher uma nova sede. Em maio, a entidade se reúne para seu Congresso Anual e uma das metas é dar um basta às especulações. Conscientes de que a Fifa terá de mudar, opositores de Joseph Blatter, o presidente da entidade, insistem que a reforma precisa passar por uma revisão da Copa de 2022.
"Ninguém sabe exatamente o que fazer. Mas há um número cada vez maior de pessoas que alertam que algo precisa ser feito", indicou ao Estado um cartola europeu, na condição de anonimato. A reportagem apurou que um grupo de dirigentes quer exigir que o próximo presidente da Fifa, que assumirá em 2015, se comprometa a rever o processo em seu primeiro ano de mandato. Em troca, receberia o voto para derrubar eventuais aliados de Blatter que entrem na corrida.
Nos últimos dias, a polêmica sobre sediar a Copa no Catar voltou à tona. Blatter já indicou que promete que, a partir de 2026, a escolha da sede do Mundial mudará. Mas a realidade é que grupos começam a se formar para pressionar a Fifa a modificar a escolha também para 2022.
PATROCINADORES PREOCUPADOS
Longe das câmeras, patrocinadores também alertam que não estão dispostos a bancar um mega evento permeado por mais polêmica que lucros. Num esforço para reduzir a pressão, cartolas passaram a propor mudanças no evento, mas sempre mantendo-o na região. O presidente da Uefa, Michel Platini, rompeu o silêncio e alertou que apoiaria o Catar sob duas condições. A primeira é a de que o torneio deixe de ser realizado apenas no Catar e que jogos ocorram em todos os países do Golfo Pérsico. "A Copa deve ocorrer em toda a região", disse o francês. Para observadores, a declaração faz parte de um esforço de "atenuar" o impacto de uma Copa com uma imagem que, desde sua eleição, é permeada de suspeitas.
Imediatamente, as autoridades do Catar acusaram Platini de "delírio". Na região, as autoridades dos Emirados Árabes Unidos se apressaram em declarar seu apoio ao Catar e negar que estejam interessados no evento. "Não sei porque esse anúncio foi feito. Não temos qualquer relação com isso", disse o presidente da Federação de Futebol dos Emirados, Yousuf Serkal.
A outra condição de Platini que ganha força para também atenuar as críticas é a da Fifa refazer o calendário internacional para realizar o Mundial durante os meses de inverno no Oriente Médio, entre janeiro e fevereiro. Blatter já havia indicado que isso seria impossível, já que representaria uma pausa de quase dois meses em campeonatos europeus já estabelecidos. Jérôme Valcke, número 2 da Fifa, ironiza as declarações de Platini, apontando que ninguém falou disso quando se votou pelo Catar.
MINAR A EUROPA
No governo do Catar e no Comitê Organizador, a ordem é a de denunciar essas especulações como um projeto europeu e americano para reaver o evento. O Catar promete gastar até US$ 100 bilhões no que seria o maior evento do mundo e suspenderia até mesmo as leis do Corão para permitir que cervejas patrocinadoras sejam vendidas.
No Catar, fontes revelaram ao Estado que o governo fará de tudo para impedir um cancelamento. Isso porque o torneio representa uma estratégia geopolítica. "O Catar não comprou a Copa. Comprou seu próprio futuro", declarou um diplomata latino-americano no Catar. Diante de uma região que tem visto um regime autoritário depois do outro cair por causa do clamor por democracia, a família real no Catar sabe que precisa fazer sua apólice de seguro. Para analistas na região, a Copa é uma delas.
Não por acaso, o emir do Catar já despachou a todo o mundo missões não apenas para promover o evento, mas para fechar acordos comerciais e de investimentos com multinacionais. Na prática, se a Copa for cancelada ou se seu governo for afetado por uma revolução, quem perde é o capital internacional.