Em 2013, a Série A2 do Campeonato Paulista ganhou um time e um personagem de destaque, além do glamour que nunca havia conseguido tirar da elite estadual até então. Campeão mundial e da Libertadores pelo São Paulo e acumulando passagens por clubes como Grêmio, Cruzeiro, Fluminense e Paris Saint-Germain, o meia Souza agora veste a camisa da Portuguesa, onde pretende utilizar todo seu carisma e talento para falar o que pensa no objetivo de se tornar ídolo em mais algum lugar antes do fim da carreira.

Com 34 anos recém-completos, o veterano e contundente camisa 10 do time do Canindé concedeu entrevista nas dependências do CT do Parque Ecológico do Tietê, evitando e até condenando o discurso padronizado dos jogadores de futebol. Ao relembrar sua marcante passagem pelo Tricolor, quando se notabilizou por raramente perder do Corinthians e costumeiramente provocar os torcedores do rival da capital, Souza também recuperou na memória histórias curiosas envolvendo dois personagens folclóricos: Muricy Ramalho e Juvenal Juvêncio, sem contar as divergências com Celso Roth e as dificuldades da vida na França.

Na base do “pior seria te iludir o tempo todo”, como disse Lulu Santos no hit ‘Sincero’, Souza é direto: precisa de confiança para render o que pode, ainda não encontrou nenhum rival para incomodar e também não criou apelidos para os novos companheiros de grupo. Mas as lembranças da carreira vitoriosa e as expectativas de voltar aos holofotes para repetir tudo o que fez antes de ser emprestado à Lusa estão mais do que vivas.

O que você está achando de jogar pela Portuguesa, quais foram as suas primeiras impressões do Canindé e do grupo?

Souza: Fui bem recebido. Eu queria tentar fugir do discurso de praxe, que é dizer que fui bem recebido na primeira entrevista, mas eu estou sendo sincero. Fazia tempo que não encontrava um grupo tão amigo, parceiro. Estou me sentindo em casa na Portuguesa, encontrei a felicidade de novo. Digo isso pelo desafio de voltar a São Paulo, o lugar onde eu praticamente comecei a aparecer no cenário brasileiro. Estou muito feliz e motivado.

Está tão motivado que logo na estreia acabou sendo expulso contra o Comercial (o jogador foi julgado pelo STJD na última segunda-feira e não levou punição extra). Foi excesso de vontade?

Souza: Foi sim. Excesso de vontade de mostrar para o torcedor quem eu sou. Mas às vezes as coisas acontecem para tu aprender. Não é porque tenho 34 anos que a gente não tem o que aprender, aprendizado vem a cada dia, a cada jogo. Isso também aconteceu no Fluminense: no primeiro jogo fui expulso e quando voltei fiz dois gols. Vamos compensar essa expulsão na Portuguesa também.

Você encara a Portuguesa como uma oportunidade de voltar aos holofotes, brilhar de novo no futebol brasileiro, ou já não pensa mais nisso?

Souza: Sou muito ambicioso, no bom sentido. Quero sim aparecer, e é uma oportunidade muito boa. A Portuguesa abriu as portas para mim. Claro que tinha outras propostas, mas por ter trabalhado com o Chamusca como meu primeiro treinador, conhecer o preparador físico, ter tido minha ascensão dentro de São Paulo dentro de outra Portuguesa, que foi a Santista, isso contou. Meu pensamento não é que eu apareça, porque não adianta eu aparecer e o clube não aparecer. Uma coisa puxa a outra. Estando bem aqui, vou aparecer. Não penso em glamour, mas quero mostrar para as pessoas que tenho condição de jogar.

Agora voltando um pouco na sua carreira, o primeiro time em que você apareceu foi a Portuguesa Santista, no Paulistão de 2013. Como foi o processo até você chegar lá?

Souza: Rodei muito. Passei primeiro no Botafogo, em uma época muito conturbada na diretoria, com salário atrasado, aí fui emprestado para o Libertad, do Paraguai, depois para o Guarani. Aí o Botafogo não pagou o que tinha que pagar para o CSA, onde fui revelado, e voltei para o CSA. Joguei um Alagoano e depois fui para a Portuguesa Santista. Lá eu encontrei um grupo muito bom de jogadores que ninguém conhecia e que fizeram uma grande campanha.

Entre esses jogadores que se destacaram na Santista estão o Adriano e o Rico, que vieram junto com você para o São Paulo no mesmo ano. Você chegou com o cabelo descolorido, houve um certo deslumbramento?

Souza: Sabe que não, cara? Eu não cheguei a me deslumbrar porque passei um período difícil no Botafogo. Naquela época fiquei oito meses jogando sem receber, então tudo que era de empolgação ou deslumbramento tinha passado na minha carreira. Demorei a jogar por circunstâncias. Quando eu cheguei, o meio-campo do time era Kaká e Ricardinho, com Julio Baptista na reserva. Me lembroaté do time que era, aí me perguntei: ‘como é que eu vou jogar aqui?’ Rogério Ceni; Léo Moura, a zaga era o Jean, Júlio Santos, e o lateral Fabiano. Meio-campo tinha Simplício, Maldonado, Kaká e Ricardinho. Na frente, Luis Fabiano e Reinaldo. Porra, um baita de um time. Mas aí aconteceram mais coisas, o Ricardinho machucou, o Kaká estava com tornozelo ruim, aí foi pintando oportunidade. O time era brincadeira, por isso a demora.

Mas aí quando você entrou no time praticamente não saiu mais, seja jogando no meio-campo ou na lateral...

Souza (interrompendo): Eu vou deixar de ser um pouco modesto agora. A humildade é uma dádiva de Deus na vida no ser humano, mas assim: se me derem sequência, é difícil me tirarem do time. Se deixarem eu pegar confiança, como aconteceu no Grêmio, no São Paulo, e no Fluminense com o Muricy, eu embalo. Quando me deram sequência sempre fui um jogador muito útil.

Você falou do Muricy agora. As pessoas contam muita história dele, mas como funciona o tal “trabalho” que ele sempre faz questão de ressaltar?

Souza: O Muricy é o treinador mais simples com quem eu trabalhei. Ele não quer saber o que você faz na rua, a única coisa que cobra e pergunta para os jogadores mais próximos deleé se está guardando dinheiro.Porque ele quer que a gente guarde para ele fazer uma visita onde a gente mora. ‘E aí, como é que está, vou lá em Maceió te visitar’. No dia a dia ele é simples. Se tu souber levar o Muricy, tu joga com o Muricy o resto da sua vida. Ele não te dá explicação quando coloca e nem quando te tira do time. Já foi boleiro, sabe como pensa o jogador, então não inventa, não gosta que jogador invente. Ele gosta de jogador que não foge do desafio, por isso me dei bem e tenho um carinho especial por ele.

Outro personagem do São Paulo nessa época, com quem você teve chance de conviver, é o Juvenal...

Souza (interrompe, rindo): Nossa, esse é meu amigão.

Tem muito folclore sobre o Juvenal Juvêncio, como foi a sua relação com ele durante a passagem pelo São Paulo?

Souza: É um amigo que eu tenho até hoje. No jogo do Cruzeiro contra o São Paulo, ano passado, ele fez questão de parar o ônibus e pedir que eu entrasse para cumprimentar o resto da rapaziada. É um dos presidentes mais inteligentes que peguei no futebol, um cara que tem visão empreendedora grande, sabe levar jogador, cobrar na hora certa e incentivar. É diferenciadíssimo. E eu ainda tive várias histórias com ele, a mais famosa é a do cavalo. Quando eu saio para jantar, o pessoal ainda pergunta: ‘e aí, cadê o Tévez?’ (o ex-jogador do Corinthians foi escolhido para nomear o cavalo recebido como presente por Souza em função de boas atuações. O atual jogador da Portuguesa foi obrigado a se desfazer do animal).

Teve alguma outra história engraçada do Juvenal nessa época em que o São Paulo ganhava tudo?

Souza: Teve essa do cavalo e também teve um jogo da Libertadores, semifinal entre São Paulo e River Plate, lá na Argentina. A gente tinha valor de premiação se passasse para a final. Ganhamos por 3 a 2 e aí o Luizão pegou uma bolsa e deu na mão do Juvenal. ‘Se o senhor jogar essa bolsa para cima, dobrou o valor do bicho’. Só o Luizão dar na mão dele e o JJ jogou para cima, a galera começou a gritar ‘Juvenal, Juvenal, Juvenal’, ele ficou vermelho.

Qual foi o diferencial daquele grupo do São Paulo que ganhou Libertadores e Mundial e ainda engrenou uma sequência de títulos do Campeonato Brasileiro depois?

Souza: Fizemos uma família, cara. Todo mundo se respeitava. Fundamental é o grupo se respeitar, ter qualidades, opiniões, mas quando estiver juntos ser amigos. A gente tinha prazer de estar junto, muito bacana, esse foi o grande trunfo do São Paulo. O Corinthians era um baita de um time, com o Mascherano, que hoje está no Barcelona, o Tévez no Manchester City, Nilmar, Carlos Alberto, Roger. Mas ia jogar e só tomava taca. Os caras iam jogar e a gente, com jogadores desconhecidos, como Mineiro, Josué, Danilo, eu, Fabão, Lugano, mas não tinha jeito. A gente olhava um para o outro e tinha prazer de estar junto. Tinha competição sadia. Não tenho dúvidas de que foi o grande sucesso desses cinco anos.

E foi justamente nessa época que começaram suastrocas de provocação com os jogadores do Corinthians, principalmente o Vampeta. Isso sempre foi da sua personalidade?

Souza: Eu fui adquirindo isso com os jogos, porque o Corinthians é um time que sempre que eu jogava contra, dava sorte, fazia gol, e jogava muito bem. É um time do qual perdi poucas vezes, pelo São Paulo só uma. Fui adquirindo esse respeito nos jogos e foi criando isso, porque os torcedores me rotularam como o cara que ganhava do Corinthians. Às vezes o Vampeta passava do limite, mas naquela época eu sempre ganhava, então entendo. Até hoje torcedores chegam e falam: ‘obrigado pelo que você fazia com o Corinthians’. Eu tinha poder para bater de frente e brincar.

Depois de ser multicampeão pelo São Paulo, você foi vendido parao Paris Saint-Germain, da França, que na época (janeiro de 2008), não estava tão bem. Você se arrependeu da transferência?

Souza: Ela foi boa financeiramente falando. Cheguei emum clube que estava passando por momentos difíceis, não foi o clube para onde o Lucas foi hoje. Mas fui sabendo que a coisa estava complicada, e esperava mais em se falando de estrutura. Todo jogador tem sonho de jogar na Europa, aí chega lá e diz: achei que fosse melhor. Comigo foi assim. Mas pelo valor, pela minha idade na época, não tinha como ficar no São Paulo.

Você não se firmou na França, foi emprestado pelo Grêmio e chegou a dizer que só iria voltar para Paris se a polícia viesse te buscar. Foi tão ruim assim essa experiência?

Souza: Não falei isso pelo que passei lá, mas pela felicidade que estava no Grêmio. Individualmente foi meu melhor ano, porque fiz quase 30 gols como meia, sem bater pênalti, só bola parada de falta. Aquilo foi um modo de falar que não queria ir, um modo do PSG ter certo constrangimento e me vender. Deu certo (risos).

Seu ex-companheiro Aloísio Chulapa disse que chegou a ficar sem comer nas primeiras horas na França porque não tinha tradutor para pedir comida. Você viveu alguma coisa assim?

Souza: Ah, com certeza. Me pagaram um curso em uma escola de francês, aí me deram endereço, botei no GPS do carro e fui até lá. Cheguei, sentei na mesa, a professora veio e falou “han”. Eu falei “han”. Nem eu sabia falar francês e nem ela português, ficamos 20 minutos um olhando para a cara do outro sem comunicação nenhuma. Aí liguei para o tradutor, que chorou de dar risada, aí passei para a mulher, ela também chorava de rir. Fui-me embora e não voltei mais na escola também. A cena foi bem constrangedora e engraçada.

E quando saiu do PSG foi para o Grêmio, um time que fez propostas até mesmo quando você estava no São Paulo. Foi uma realização para as duas partes, não é?

Souza: Foi um ano muito bom para mim, porque é um clube que gosto até hoje,bom de setrabalhar e em uma cidade boa de morar. Foram dois anos muito bons, mas no terceiro, 2010, acabei machucando o joelho. Aí trocou diretoria, e eu era amigo do Duda (Kroeff, ex-presidente do clube). Por isso hoje tenho opinião de que não adianta se apegar ou ter amor ao clube, porque se você está machucado ele não te respeita. Me senti um pouco desrespeitado aquele ano. Mas passou. O que eu prezo é o respeito que você adquire com o torcedor, isso é fundamental.

Depois do Grêmio você passou pelo Fluminense e, mais recentemente, pelo Cruzeiro. Houve uma polêmica com o Celso Roth, que na época você preferiu não falar porque o time estava na briga contra o rebaixamento. Tem algum problema falar sobre isso?

Souza: É o seguinte: ele tinha combinado um treino e os jogadores estavam cansados, porque era final de ano, o clube passando por um momento difícil, brigando lá embaixo. Aí falei que o pessoal estava cansado e chegou de outro jeito nele, gerou um mal estar e ele me tirou de um jogo. Deu azar, porque perderam para o Santos e o Montillo ficou de fora. O substituto era eu e ele teve que me colocar e explicar porque não fui no outro jogo. Ele deu uma explicação aquém do que foi a verdade. Mas passou, foi o segundo ano que trabalhei com o Celso, e não tive problema com treinador nenhum.
 

Quando chegou a proposta da Lusa você topou de cara?

Souza: Topei. Tinha outras coisas, até aqui de São Paulo também, mas não esperei não. Já de cara aceitei, só conversando com a esposa e o empresário, além de algumas pessoas que trabalharam aqui e me deram referência boa. Topei na hora, falei ‘vamo simbora’.

Você diz que teve propostas de outros times de São Paulo além da Portuguesa. Quais?

Souza: Não vou te falar. Sabe por quê? Porque aconteceu uma dessas comigo em Belo Horizonte. O Atlético-MG me queria, o Cuca chegou a me ligar em casa. Mas aí aceitei o Cruzeiro e dei entrevista dizendo que tinha escolhido o Cruzeiro. O presidente do Atlético também foi na imprensa para dizer que não tinha procurado, que era mentira. Meu empresário falou para eu não bater boca. Então, para não dar a entender que escolhi a Portuguesa por menosprezar o outro clube, prefiro não falar. Mas é um clube que me procurou desde o ano passado. Escolhi a Portuguesa e sei que foi uma ótima escolha.
 

E aqui na Portuguesa você está tendo oportunidade de jogar a Série A2 do Campeonato Paulista, uma competição sem o mesmo glamour com o qual você está acostumado. Como tem sido a experiência?

Souza: Para quem disputou Série C do Brasileiro no CSA, no começo, a gente tira de letra. Futebol é 11 x 11, tem bola, tem juiz. É tranquilo. Não me sinto um jogador menos conhecido ou mais conhecido por disputar uma competição abaixo da elite. Tudo para mim é aprendizado, é um ótimo campeonato para te preparar para o Brasileiro da Série A. É pegado, rápido, como exige o Brasileiro.

A torcida da Lusa tem fama de corneteira, tanto que até te criticou no início do Paulistão. Como você lida com isso?

Souza (depois de rir): Eu acredito que a torcida da Portuguesa pode cobrar. Escutei de algumas pessoas que o Kempes (atacante) saiu por causa de torcida pegando no pé. Mas torcedor não é idiota. Se o jogador não jogar bem, mas estiver dando o máximo, vai estar do lado da Portuguesa. É claro que vão pegar alguns para Cristo, mas quem estiver bem vai ter o respeito da torcida.

No São Paulo você tinha o costume de ficar inventando apelidos para os jogadores, como Leci Brandão, para o lateral esquerdo Júnior, que ficou conhecido em todo o Brasil assim. Já está fazendo isso na Lusa?

Souza: Ainda não. Viajei pouco com a rapaziada, já tenho liberdade de apelidar alguns, mas estou criando para lançar logo mais. Daqui a pouco vocês vão ficar sabendo.

Em uma das suas provocações com o Vampeta, você chegou a dizer que você enchia o saco dele porque “não tinha 15 apartamentos”. Hoje você tem? Financeiramente está bem?

Souza: O Vampeta é brincalhão (risos). O Vampeta tem 15 apartamentos e mora em um flat, pô. Éum brincalhão. Mas graças a Deus tenho uma vida bem estruturada. Não tenho 15 apartamentos, mas o que tenho hoje me sustenta até parar de jogar bola e o resto da minha vida.

Agora para encerrar: dentro de campo você é um cara dedicado, mesmo sem apresentar um futebol vistoso, às vezes. Fora de campo é brincalhão, boa praça. Estão faltando caras como você no futebol?

Souza: Ficou muito padronizado, né? As pessoas têm muito medo de falar as coisas, de se expor. O futebol ficou muito político, o pessoal gosta de fazer média para poder se manter. Faltam sim caras como eu, como o Sheik. Eu acredito que por isso tenho respeito da imprensa, do torcedor. A entrevista mais disputada do Corinthians deve ser ele, porque foge do padrão. O pessoal está cansando de entrevista “graças a Deus fizemos três pontos”, aquela mesma conversa da época do Pelé. Acho que falta isso sim. Sempre falam que futebol é alegria, então por que não ter alegria na hora de defender seu clube, de falar? Eu sempre conquistei tudo assim e não vou mudar nunca. Espero que surjam outros assim.