O ex-prefeito de Palestina, José Alcântara Júnior, é considerado foragido da Justiça. Durante uma operação, realizada na manhã desta terça-feira (05), por equipes das Polícias Militar e Civil de Alagoas, mandados de prisão expedidos pela justiça foram cumpridos no município e dez suspeitos de participar de um esquema de fraudes em licitação e desvio de verbas públicas foram detidos. 

As prisões dos envolvidos foram solicitadas pelo Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas (Gecoc) após oferecer uma denúncia contra Júnior Alcântara e outras quinze pessoas, dentre ex-servidores públicos, ex-secretários municipais e um empresário.

Durante o cumprimento dos mandados, chegou a ser confirmada pelo MP a prisão de Júnior Alcântara. No entanto, por meio de nota, a assessoria disse que houve um engano na informação e voltou atrás. Todos os presos serão encaminhados a capital e após prestarem depoimento devem ficar recolhidos no sistema prisional. A ação foi comandada pela delegada Ana Luiza Nogueira e contou com o apoio de equipes do Tigre e da Força Nacional.

Os crimes foram praticados durante a gestão de José Alcântara Júnior, mais precisante entre os anos de 2009 e 2012. Como era o prefeito de Palestina à época, ele é apontado como o chefe da organização criminosa e liderou um grupo de ex-funcionários que trabalhavam na Comissão Permanente de Licitação - Manoel Messias da Graça, Fernando Jorge Miranda dos Santos, José Vanildo dos Santos, Francisco de Assis Ferreira, Luciano Lucena de Farias e Francisco de Assis Costa da Silva - e nas Secretarias de Assistência Social, Saúde, Finanças, Administração, Educação e Obras e Urbanismo – Crizélia de Melo Alcântara, Elysson José Damasceno Gomes, Gedilson Costa da Silva, Djalma Alencar da Silva, Ana Paula Oliveira Souza e Eumanio Melo da Silva, respectivamente.

Também fizeram parte do esquema ilícito os empresários Alberto Rodrigues de Oliveira, sócio da Construnorte Construções e Serviços LTDA e Eraldo do Leite, representante legal da mesma empresa.

O grupo é acusado de integrar uma organização criminosa que praticou os crimes de apropriação de verbas públicas, fraudes em licitações, peculato furto, falsificação de documento particular, falsidade ideológica, uso de documento falso e formação de quadrilha. O valor que teria sido desviado ultrapassa os R$ 762 mil. A Deic cumpre os 16 mandados de prisão. Todos foram expedidos pela 17ª Vara Criminal da Capital. 

Em dezembro do ano passado, o Gecoc realizou várias operações em municípios do Sertão alagoano, dentre eles, na cidade de Palestina. O objetivo da ação foi a busca de irregularidades em processos licitatórios, onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão. No município, os promotores do Gecoc constataram provas convincentes de que os ex-gestores fraudavam processos licitatórios. Os vários documentos chegaram a ser apreendidos durante a ação do ano passado confirmaram que uma empresa de consultoria foi contratada para maquiar as licitações, parecendo que todas estivessem dentro da legalidade.

As investigações do Gecoc começaram em 2012 e, após a análise de farta documentação aprendida durante cumprimentos de mandados de busca e apreensão expedidos pela 17ª Vara Criminal da Capital e pelo Juízo da comarca de Delmiro Gouveia, ficou comprovado que vários processos foram dolosamente manipulados e fraudados nos anos de 2010 e 2011, o mesmo tendo acontecido nas licitações realizadas entre os anos de 2008 e 2010. O valor do prejuízo somou R$ 762.432,90.

Quadrilha fraudou documentação de empresas

O Gecoc fez uma análise criteriosa nos balancetes do Município dos anos de 2010 e 2011 por exemplo, e após a realização desse trabalho, comprovou que o grupo criminoso fraudou documentos em nome da dezenas de empresas. Construtora Farias Omena, Alfa Epi's Comércio LTDA, H.F.Calheiros e Cia LTDA, Comferral Comércio de Ferragens LTDA, Energy Instalações Elétricas LTDA, Cunha e Melo LTDA, J.A. Construção LTDA, Costa Comércio e Representações LTDA e Virtual Computer Informática LTDA estão entre os estabelecimentos que foram vítimas dos acusados.

Em depoimentos prestados ao Gecoc, os donos e representantes das referidas empresas e de outros 20 estabelecimentos negaram já ter prestado serviços ou vendido quaisquer produtos à Prefeitura de Palestina e garantiram que as notas fiscais atribuídas a eles são falsas.

“Os processos de pagamento relacionados ao adimplamento das obrigações supostamente contraídas nos anos de 2010 e 2011 pelo Município de Palestina foram fraudadas de forma grosseira e acintosa pela organização criminosa comandada pelo denunciado José Alcântara Júnior com o intuito de se apropriar criminosamente do dinheiro público destinado ao pagamento de serviços e de obras supostamente contratadas e não realizadas, bem como destinado ao pagamento dos fornecimentos de materiais que jamais foram entregues, causando profundo prejuízo à municipalidade que, em consequência, vê-se privada de ações que visem à melhoria da qualidade de vida de sua população”, diz trecho da denúncia.

Ainda de acordo com o MPE, parte dos documentos que deveriam ter sido recolhidos não foram localizados durante o cumprimento dos mandados, o que significa dizer que outras empresas também podem ter sido lesadas criminalmente pela quadrilha. “O ex-prefeito Júnior Alcântara, líder do bando criminoso, providenciou a ocultação dos mesmos”, acusa o Gecoc.  

Obras que não aconteceram e produtos não adquiridos

As licitações fraudadas envolveram prestação de serviços não realizados e supostas compras de material. Foram abertos processos para aquisição de produtos e equipamentos de informática e eletro-eletrônicos e para a contratação de obras de terraplanagem, desobstrução de riachos e serviços de engenharia e recuperação de trechos da malha viária da cidade.

Durante as investigações, Eraldo do Leite, representante legal da Construnorte Construções e Serviços LTDA e que figura também na condição de denunciado, contribuiu com o trabalho do Gecoc. O acusado admitiu que havia fraude nas licitações, disse que ele próprio falsificou notas fiscais e que, para algumas das obras contratadas, a Construnorte sequer tinha o maquinário necessário para a execução do serviço.

A denúncia do Gecoc também alega que a maior parte dos contratos firmados foram considerados de 'fachada': 'são destituídos de qualquer eficácia, haja vista que não foram publicados na imprensa oficial e, nem tampouco, em qualquer outro lugar, em uma clara demonstração de que não havia interesse em que a suposta celebração dos mesmos chegassem ao conhecimento do público e produzissem seus efeitos externos, já que a intenção do aludido gestor era, simplesmente, simular a criação de um suposto encargo que servisse de camuflagem para a apropriação integral das verbas”, revela outra parte da denúncia.

Todos acusados foram denunciados pela prática dos crimes de apropriação de verbas públicas, fraudes em licitações, peculato furto, falsificação de documento particular, falsidade ideológica, uso de documento falso e formação de quadrilha.

Contra Júnior Alcântara, o MPE apresentou denúncia o acusando do cometimento do crime de fraude em licitação por seis vezes. Ele também teria praticado, por 100 vezes consecutivas, o ilícito de apropriação de bens ou rendas públicas ou desvio de dinheiro em proveito próprio ou alheio, por 31 vezes, o crime de falsificação de documento particular e, por 33, o uso de documento falso. A falsidade ideológica teria sido cometida por ele em seis ocasiões e por todas essas acusações, ele recebeu a acusação de chefiar o esquema criminoso.

Os demais membros da quadrilha e o empresário Alberto Rodrigues de Oliveira foram denunciados pelos mesmos crimes. Este último, participava das fraudes para conseguir beneficiar sua empresa. À denúncia, foram acostados 411 documentos, dentre eles,34 termos de declarações. Nela, o Ministério Público de Alagoas, além da prisão, também pede que os réus sejam condenados à suspensão dos direitos políticos pelo período de cinco anos, para o exercício de cargo ou função pública, eletivo ou de nomeação, sem prejuízo da reparação civil do dano causado ao patrimônio público ou particular.