Uma mulher humilde, analfabeta, trabalhadora rural, viúva e com três filhos para sustentar, apaixona-se por um rapaz mais jovem, também humilde, trabalhador rural e ignorante.

Ignorância esta na mais real e forte acepção da palavra. O homem jovem é forte e garboso, trabalhador e gosta de beber. Chega em casa tarde e, às vezes, bêbado. Ele é hoje a única referência masculina para ela, que, por sua vez, nunca soube o que era realmente carinho e amor, mas sabe o que é ter alguém com quem dormir e dizer que lhe protege dos “broncos” da região – dos mais “broncos”.

A comunidade a que pertencem também é bastante humilde e poucos escrevem algumas palavras mais que o próprio nome, são educados pelo que passa nas tvs, pois falta dinheiro para a comida, mas não para o televisor.

Aquele homem jovem e forte, quando bêbado, ultrapassa todos os limites do aceitável e agride a mulher, por ciúme, por possessividade, por doença. Não há justificativa, não há porquê, o que há é brutalidade.

Muitas mulheres são vítimas de homens como estes. Elas são vulneráveis emocionalmente e financeiramente, não reconhecem a possibilidade de uma mulher não viver com um homem, não entendem que é possível conviver com igualdade de direitos e condições entre homem e mulher e apenas assumem, comodamente, sua submissão.

Essa história se repete diariamente, em diversos lares e com diversas mulheres. A condição de subserviência é a única que muitas mulheres conhecem e se submetem a ela sem maiores questionamentos.

E essa poderia ser apenas mais uma história a virar estatística e a ser disciplinada pela Lei Maria da Penha, senão tivesse vitimado mortalmente a mãe de três filhos e grávida de 8 meses de sua quarta filha.

Se bem que apenas quando a mulher cria coragem e denuncia o “companheiro” – algoz – ou um dos vizinhos indignados, o que é difícil em localidades viciadas por tradições machistas e opressoras, é que histórias como essas chegam às autoridades policiais.

Gilvanete Rozendo, de 40 anos de idade, foi agredida há quase um mês pelo companheiro, de 22 anos de idade, com uma barra de ferro. Ela escondia dos familiares que era agredida constantemente, sempre dando desculpas para os ferimentos que apresentava, em especial nas mãos. Ao dar entrada no hospital, ainda falando, sua preocupação era com a prisão de seu agressor. O parto foi antecipado e sua filha nasceu. O quadro clínico de Gilvanete se agravou irreversivelmente, e na última terça-feira (29/01) a mãe de quatro filhos faleceu.

O caso chocou os alagoanos e desde que ganhou os noticiários sua saga tem sido acompanhada por todos. O fato de ser mulher não foi suficiente para sensibilizar o agressor; nem o fato de estar grávida de 8 meses; muito menos de serem mãe e filha sua família. Mas tudo isso foi mais que suficiente para chocar o alagoano.

Que casos como o de Gilvanete, assim como o de Maria da Penha, não caiam no esquecimento. Que os homens entendam que mulheres merecem respeito e que independentemente de gênero ninguém deve ser agredido.

 

Este artigo é mais que uma homenagem à Gilvanete, mulher que, provavelmente, não sabia que era possível viver de uma forma diferente da qual estava submetida, assim como tantas outras em nosso estado, em especial nos pequenos municípios do interior, mas principalmente alertar aos leitores para sua responsabilidade na denúncia e no amparo às vítimas de agressão.

Colheremos os frutos pelas sementes plantadas na sociedade, não percamos as oportunidades de falar sobre os direitos das mulheres e alertar as vítimas sobre suas opções além da opressão, dependência e medo. A instrução e o alerta são os meios de proporcionar a essas mulheres a escolha verdadeiramente consciente.

 

 

* É Um clássico do cinema americano, de 1991, baseado no romance homônimo da escritora Nancy Price, dirigido por Joseph Ruben e estrelado por Julia Roberts, vítima de agressão praticada pelo marido.