Milhares de egípcios lembraram o segundo aniversário da revolução que derrubou o ex-ditador do Egito Mosni Mubarak para pedir que seus objetivos sejam cumpridos e que acabe o monopólio político da Irmandade Muçulmana, em uma sexta-feira marcada por fortes distúrbios no Cairo e em outras províncias do país.
Na emblemática praça Tahrir, milhares de manifestantes de diversas correntes políticas cantaram e usaram palavras de ordem contra o que consideram o domínio da Irmandade Muçulmana no cenário político egípcio.
As manifestações, convocadas por grupos opositores como a Frente de Salvação Nacional, aconteceram em frente ao Palácio Presidencial e nas principais praças do país. Além de lembrar os dois anos do início da revolução que acabou com o regime de Mubarak, os participantes dos protestos fizeram várias exigências ao atual líder, Mohammed Mursi, e seu governo, e os criticaram duramente.
O farmacêutico Mohammed Fahmi, usando uma camisa com as cores da bandeira egípcia, afirmou à Agência Efe que foi à praça para "lembrar ao regime os direitos dos mártires e dos vivos", em alusão aos mortos na revolução.
"Queremos uma vida digna e garantias de trabalho para nós e nossos filhos, e para quem ainda não encontrou o que comer", acrescentou Fahmi, que lamentou que a Irmandade Muçulmana esteja a serviço de si mesma, e não do povo.
Entre as bandeiras egípcias e os cartazes de ativistas mortos durante a revolução, havia cartazes gigantes com inscrições como: "Abaixo a Constituição da Irmandade Muçulmana" e "O povo quer derrubar o regime".
Os manifestantes acusam a Irmandade de "roubar" a revolução, de promover o mal no país e de tentar se apossar da cena política.
"A Irmandade Muçulmana monopolizou tudo", disse à Agência Efe a manifestante Karima Ahmed.
"Passaram-se sete meses (do início do governo da Irmandade Muçulmana) e não vi nada: nem pão, nem liberdade, nem justiça social. O antigo regime nos roubou, mas vivíamos bem", acrescentou.
Enquanto a maioria dos manifestantes se concentrava de maneira pacífica na praça Tahrir, dezenas de jovens enfrentava a polícia na rua Al Sheikh Raihan, que liga a praça com às duas câmaras do Parlamento.
Como constatado pela reportagem da Agência Efe, grupos de jovens tentaram destruir um muro de concreto erguido pelas autoridades nessa rua, o que causou confrontos nos quais manifestantes e policiais usaram pedras e gás lacrimogêneo.
As forças policiais intensificaram as medidas de segurança em torno do Ministério do Interior, da sede do governo e das duas câmaras do Parlamento. Mais de dez veículos blindados, entre outros carros das forças de segurança, ficaram em volta destes edifícios, todos eles próximos à praça Tahrir.
Segundo o último balanço de feridos do Ministério da Saúde, até as 18h30 locais (14h30 de Brasília) pelo menos 119 pessoas ficaram feridas e tiveram que ser internadas em hospitais de todo o país. Até este horário, não tinham sido registradas mortes.
Os distúrbios no Cairo se estenderam aos arredores do Palácio Presidencial de Al Itihadiya, onde os serviços de segurança usaram gás lacrimogêneo para dispersar vários manifestantes que tentaram derrubar barreiras na frente da entrada principal.
Os protestos, dos quais não participaram as principais forças islamitas, mas sim legendas islamitas moderadas, como a liderada pelo ex-candidato presidencial Abdel Moneim Abul Futuh, se reproduziram em outras províncias egípcias.
Em Alexandria, segunda maior cidade do país, jovens e a polícia se enfrentaram perto do Tribunal Penal e do Conselho Municipal, o que deixou 61 feridos entre os manifestantes, segundo o Ministério da Saúde.
Na cidade de Ismailiya, um grupo atacou com pedras e coquetéis molotov a sede do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana, o que causou um incêndio no local. Na mesma cidade, uma ferrovia e uma estação de trem foram bloqueadas por manifestantes.