Se o homem pena para resistir a uma estiagem que parece não ter fim, apegando-se aos programas de distribuição de renda como a tábua de salvação, ao gado, esquálido e esfomeado, o destino que está traçado é a exportação para outras regiões ou a morte pelas fazendas esturricadas, de fome.
A seca em Alagoas, deste ano, que está entrando para a história como a mais devastadora, superando as grandes tragédias de 1932, 1938 e 1958, tem sido mais implacável para os animais do que para os homens. Estes, estendem a mão para os céus e se engajam aos programas sociais, como o Bolsa-Família, e, assim, vão escapando da morte severina.
Os bichos, não. Falta-lhes, além da comida, a água. Em Batalha, Bacelo Homero de Soares, comemora a abertura de um poço que deu uma boa vazão, porque não servirá apenas para matar a sua sede, mas principalmente a dos seus animais – bois, vacas e cavalos.
“Isso aqui, moço, vai ser a nossa salvação, porque não adianta ter apenas a comida se a água falta. Ai, os bichinhos vão morrer de sede”, diz Bacelo, que ainda tem encontrado um pouco de capim nas redondezas, comprado a preço de ouro. No dia-a-dia, ele tem enfrentado uma verdadeira penitência em sua carroça puxada por um burro.
Como ele, dezenas de pequenos criadores daquela localidade festejam a chegada do poço como uma dádiva caída do Céu. Pelos seus cálculos, a água que vem brotando do reservatório dará para enfrentar o período mais crucial da seca, que se estende até o final de dezembro, quando espera chegar às trovoadas.
Na cidade de Belo Monte, a menos de 10 km da margem do rio São Francisco, o rio da unidade nacional, o agricultor José Oleodório da Silva, não tem dinheiro para comprar farelo de soja, capim nem palma. O jeito é se virar arrancando mandacaru com a paciência de que Deus deu a Jó.
“Viver no Sertão virou vida de cão. Eu nunca vi uma seca para maltratar tantos os animais. Ande por aí, moço, sertão adentro, e veja se não vai encontrar muito gato morto pela fome”, diz Silva. O gado se abate, mas ele não. Promete resistir com forças à espera de dias melhores. “Aqui, as coisas só mudam de verdade quando chove”, afirma.
Em Major Izidoro, o bravo vaqueiro imortalizado na voz de Luiz Gonzaga, mas também por ser palco agora da maior dizimação de gado do Nordeste, o garoto Jeremias da Silva, de 17 anos, anda 10 léguas para achar mandacaru.
Única reserva, aliás, de pasto que sobrou ali para os animais. Tostado ao fogo para queimar os espinhos, é servido ao gado no lugar da palma, que acabou não tanto pela seca, mas por uma doença que o Estado vem tentando controlar: a cochonilha, o novo inferno astral dos pecuaristas da região.
“Não tem sido fácil achar mandacaru. A gente tem que andar muito agora. Antigamente, se achava em qualquer lugar, mas hoje andei mais de duas léguas para achar esse tiquinho”, diz Jeremias. Segundo ele, não há outro tipo de alimento para o gado naquela região há mais de seis meses.
O sítio Milha, onde a família de Jeremias vive, já foi num passado não muito distante uma grande área produtora de ração para o gado e, consequentemente, criatório invejável de gado de leite e de corte. Mas a seca se encarregou de banir o homem do campo, primeiro, e depois os bichos.
Se ao gado do Sertão só resta mandacaru, o plantel da bacia leiteira vem se virando com palha de cana importada da Zona da Mata. Mas não é todo criador que tem saúde financeira para recorrer ao alimento. Uma carga, transportada em caminhões, não sai por menos de R$ 1,2 mil.
“Já compramos por R$ 900, mas agora, os cabras estão explorando demais. Sabem que a gente não tem outra saída e sobem o preço para inviabilizar o nosso negócio”, desabafa o pecuarista Luiz Antônio Leite, que cria 40 cabeças de gado leiteiro em Batalha, integrante da bacia leiteira do Estado.
Luiz consegue reduzir um pouco o preço depois de uma grande choradeira na tradicional feira de Arapiraca, onde os caminhoneiros que trazem o produto da Zona da Mata fazem ponto de para e comercialização. “Se a gente não recorrer à palha da cana não vai conseguir salvar o gado, porque nem mandacaru a gente tem mais nessa região”, diz.
Em Major Izidoro, município também integrante da bacia leiteira, região intermediária entre o Sertão e o Agreste, o jovem Geraldo de Assis Conceição passa o mandacaru numa máquina forrageira para servir ao gado e o complemento alimentar tem sido também a palha de cana remetida da Zona da Mata.
“Eu nunca vi em toda a minha vida uma seca que levou tanto sofrimento ao gado como esta. Não há gente morrendo de fome nem ameaçando invadir mercados ou saquear feiras livres. O que existe de fato é um quadro de grandes dificuldades para o gado. Aqui, a gente só não perdeu algumas novilhas porque ainda restam à palha e o mandacaru”, observa.
Olho de boi parece parado, não vê, e quando vê fica assustado. No Sertão, o susto é de fome, fome que já matou mais de 200 cabeças de gado de “seu” Cidrim, em Major Izidoro. Mas, não precisa andar mais de 240 km e chegar até Minador do Negrão para bater de frente com gado morto.
Basta andar em qualquer vereda dos sertões ou dos agrestes, para ver escancarada à sua frente o retrato que simboliza esta seca, a maior dos últimos 50 anos: bois, vacas, bezerros e novilhas, abatidos pela fome, jogados em verdadeiros cemitérios a céu aberto pelas estradas.


