O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse que monitores da organização foram alvo de disparos ao tentar chegar ao cenário do mais recente massacre da Síria, que teria deixado dezenas de mortos. À Assembleia Geral da ONU, Ban disse que observadores desarmados tiveram inicialmente seu acesso negado à vila de Qubair, na Província de Hama (centro do país), e que "foram alvo de disparos com armas de baixo calibre" enquanto tentavam chegar ao local. Ele, porém, não mencionou se o incidente deixou vítimas.
Como o regime de Bashar al-Assad impossibilita o acesso da imprensa, é impossível confirmar de forma independente o número exato de mortos e as circunstâncias da chacina em Qubair. Dois grupos de ativistas sírios, o Comitê de Coordenação Local e o Conselho Nacional Sírio, apontaram que o massacre deixou 78 mortos, incluindo muitas mulheres e crianças.
De acordo com as duas fontes, milicianos pró-governo conhecidos como shabiha primeiramente dispararam contra a vila agrícola e depois invadiram o local. Algumas das vítimas foram executadas a tiros, outras mortas a facadas, e houve corpos que foram queimados. O governo sírio negou que o massacre tenha acontecido.
Segundo Ban, cada dia a Síria vê mais "atrocidades horríveis", e há meses ficou evidente que o presidente Assad e seu governo "perderam toda a legitimidade".
O secretário-geral disse que qualquer regime que tolere massacres como o de 108 civis no mês passado na região de Houla, na Província de Hama, e o de quarta-feira em Hama "perdeu sua humanidade fundamental". Entre os mortos de Houla havia 49 crianças e 43 mulheres. Os massacres acontecem enquanto um plano de paz fracassa e o país se aproxima cada vez mais de uma guerra civil.
De acordo com o chefe da missão de observadores da ONU, o general norueguês Robert Mood, os monitores da ONU mobilizados na Síria foram impedidos nesta quinta-feira, principalmente "por barreiras do Exército", de chegar à vila. "Os observadores ainda não conseguiram chegar à aldeia. Sua missão é prejudicada pelo (...) fato de terem sido parados em barreiras do Exército sírio e, em alguns casos, terem sido obrigados a voltar", indicou em um comunicado.
O chefe da missão da ONU acrescentou que "algumas de nossas patrulhas foram paradas por civis na área". "Recebemos informações de moradores de que a segurança de nossos observadores estaria em perigo se entrássemos na aldeia de Qubair", acrescentou.
Hama foi o local de um notório massacre em 1982, quando o pai e antecessor de Assad, Hafez, ordenou que o Exército coibisse uma rebelião sunita. A Anistia Internacional estimou que entre 10 mil e 25 mil foram mortos no cerco, embora existam dados conflitantes e o governo sírio nunca tenha feito uma estimativa oficial.
Ativistas dizem que a repressão de Assad contra o levante antigoverno deixou 13 mil mortos desde março de 2011. Um ano depois do início da revolta, a ONU estimou o número de mortos em mais de 9 mil, mas centenas morreram desde então.
Escalada: Levante na Síria completa um ano e ameaça se espalhar por região
A comunidade internacional vem condenando a repressão conduzida por Assad, mas os EUA e seus aliados têm pouca possibilidade de ação na Síria. Os líderes ocidentais depositaram suas esperanças na pressão diplomática do enviado especial Kofi Annan, com os EUA e outros não desejando se envolver profundamente em outro tumulto em uma nação árabe - principalmente uma tão imprevisível quanto a Síria.
O conflito está entre os mais explosivos da Primavera Árabe, em parte por causa da rede de alianças de forças como o grupo xiita libanês Hezbollah e o xiita Irã. A Rússia e a China têm impedido uma ação mais forte do Conselho de Segurança da ONU, dando a Assad uma significativa proteção enquanto a repressão continua. Ambos os países, que têm poder de veto no órgão mais importante da ONU, opõem-se a uma intervenção militar na Síria.