Confúcio foi um filósofo chinês que viveu entre 551 a.C e 479 a.C. e, naquele tempo, já ensinava: “se queres prever o futuro, estuda o passado”
Tolstói, por sua vez, preconizava, já nos idos do século passado, que “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”.
A Comissão da Verdade, instalada pela Presidente Dilma, tem como objetivo apurar violações aos direitos humanos no período compreendido entre 1946 e 1988. São mais de quatro décadas, passaram pela Presidência da República nada menos que treze Chefes de Estado (sem mencionar os interinos) e um “sem-número” de perseguidos políticos foram vítimas do Estado.
Muitos são os sentimentos que afloram diante da instalação da Comissão da Verdade, a qual, inegavelmente, é muito mais simbólica que efetiva. Não que não seja capaz de produzir efeitos, mas o sentimento que desperta em todo brasileiro que se nega a esquecer o recente passado escuro e doloroso dos porões da ditadura supera, e muito, qualquer desejo vingativo ou de justiça pelos mortos, torturados e/ou desaparecidos.
As discussões têm residido, precipuamente, quanto ao caráter político e criminal que terá a tal Comissão.
A ala da esquerda, a revolucionária, comunista, ao menos no passado, defende que o que se almeja é por fim às décadas de espera por informações verdadeiras sobre o paradeiro dos desaparecidos políticos. Já a ala conservadora, aquela que até hoje o é, reclama o caráter revanchista e a perseguição que se instalará nas repartições militares – como se o conservadorismo não residisse principalmente entre o alto empresariado brasileiro, aquele que ainda está por aí.
O lapso temporal desde o mandato do General Eurico Gaspar Dutra até a promulgação da Constituição de 1988 é tanto que é natural que memórias esfriem, rastros se apaguem e resultados dificilmente sejam alcançados.
No entanto, a Comissão da Verdade é de extrema importância. O Brasil não chegou à democracia por meio revolucionário, e aqueles que estiveram no poder durante o regime ditatorial não saíram pela porta dos fundos. Muito pelo contrário.
Encontrar hoje, mais de sessenta anos depois, informações que desvendem histórias apagadas pelo tempo e pelo cacetete é um grande desafio. Políticos e meros cidadãos oposicionistas, que por sonharem com ideais socialistas, foram perseguidos, presos, torturados, banidos e mortos não podem ter sua história submetida ao capricho dos vencedores, aqueles que sobreviveram para contá-la.
Que a verdade venha à tona, ainda que mitigada pelo tempo e pelo poderio econômico e bélico, mas que algo surja, que paradeiros sejam desenhados e que histórias se revelem. Ainda que pelo preço de reviver lembranças dolorosas e que nomes culpados não apareçam, mas que mães e, principalmente, esposas e filhos, possam enfim velar seus mortos e orgulhar-se de suas memórias.
Assim como, que o brasileiro tenha sua memória reavivada, e aqueles que viveram na mais completa dissociação da realidade política e autoritária do país, enfim, tomem conhecimento das atrocidades cometidas e reconheçam os herois que se sacrificaram por um país mais igualitário, democrático e livre.
Ainda há muito a ser feito, o Brasil continua sendo de desiguais, a diminuição dessa desigualdade tem se dado de forma precária e conformista, e por mais que seja pacífica a ideia de que há muito a melhorar no Brasil e, em especial, em nossa Alagoas, a ferramenta que mais produz efeitos é a mudança de atitude e essa só se consegue com a disseminação de ideias e o investimento em educação.
E se hoje podemos fazer uso de nossa voz, de nossas palavras e inspirar comportamentos e atitudes, é porque nossos heróis – os autênticos –, e não os maquiados com cara de santo, lutaram pela verdade.
*Frase de George Santayana: filósofo, poeta e ensaísta espanhol, viveu entre 1863 e 1952.