O porta-voz do governo do Distrito Federal, Ugo Braga, explicou nesta sexta-feira que o encontro entre o ex-diretor da construtora Delta, Cláudio Abreu, - ligado ao empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira - com o secretário de Governo do Distrito Federal, Paulo Tadeu, e o secretário de Saúde do DF, Rafael Barbosa, foi uma reunião para tratar de problemas relacionados à questão do lixo.

A reunião teria ocorrido em um restaurante em Brasília, no dia 7 de abril de 2011, período em que Paulo Tadeu acumulava as tarefas da Casa Civil dentro da Secretaria de Governo. A secretária da Casa Civil foi criada posteriormente.

Segundo o porta-voz, a Delta estava enfrentando problemas para entrar no lixão e também com o recebimento de faturas. "Uma empresa prestadora de serviço pediu para falar com o secretário que cuida da área e o assunto que se tratava era o serviço prestado", disse logo após a entrega da reforma da Central de Material Esterilizado e inauguração da Sala de Cirurgia Inteligente do Hospital de Base do Distrito Federal.

Braga negou que haja proximidade entre o ex-diretor da empresa e os secretários de governo que participaram da reunião. De acordo com Braga, o secretário de Saúde fez a intermediação porque ele havia feito parte da coordenação de campanha do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz.

Barbosa negou hoje que tenha qualquer relação com o empresário Carlinhos Cachoeira. "Acho que 80% da cidade usa o telefone para cobrar alguma coisa do secretário de Saúde e, no dia que essas pessoas estiveram num grampo, meu nome vai aparecer. Agora, quando eu estiver tratando de coisas escusas num grampo, podem me cobrar uma resposta. Nunca encontrei com o Carlinhos Cachoeira", disse.

O porta-voz voltou a dizer que o governador foi apresentado ao empresário Carlinhos Cachoeira enquanto ainda era diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) durante a visita a uma laboratório farmacêutico em Anápolis (GO).

Questionado sobre a denúncia, o governador Agnelo Queiroz, não quis comentar sobre o assunto e respondeu que tem "muito o que fazer". "Eu estou cuidando de Brasília e meu porta-voz está falando sobre isso".

As declarações ocorreram depois que gravações da Operação Monte Carlo, que investiga um esquema ilegal de jogos em Goiás, vazaram para a imprensa. Numa delas, o secretário de Saúde, Rafael Brabosa, é citado por Cláudio Abreu. Nessa mesma gravação, o governador e o ex-diretor do Serviço de Limpeza Urbana de Brasília (SLU), João Monteiro, exonerado na última semana, também são citados.

Segundo informações divulgadas na imprensa, os diálogos gravados pela Polícia Federal, com autorização judicial, indicam que a construtora Delta pagou propina para receber o pagamento de serviços prestados ao governo do Distrito Federal. A construtora é responsável pela coleta de lixo em Brasília.

Cachoeira foi preso em fevereiro por atuação em jogos ilegais e Cláudio Abreu foi demitido em março deste ano.

Demóstenes e Carlinhos Cachoeira
Em 6 de março de 2012, o senador Demóstenes Torres (GO) subiu à tribuna para dar explicações sobre as denúncias de sua proximidade com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, descoberta pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que terminou em fevereiro, com a prisão de Cachoeira e de outras 34 pessoas. Demóstenes disse que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido critérios legais. Dez dias depois, o jornal Folha de S.Paulo publicava um relatório do Ministério Público Federal (MPF) que indicava que o grupo comandado por Cachoeira entregou telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, que admitiu ter recebido o aparelho.

O jornal O Globo noticiou, em 23 de março, gravações da PF que flagraram Demóstenes pedindo para Cachoeira lhe pagar R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo e vazando informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes. Em 27 de março, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado para "acompanhar a evolução dos fatos". No dia seguinte, o Psol entrou com representação contra o parlamentar no Conselho de Ética do Senado e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandovski autorizou a quebra do sigilo bancário de Demóstenes, solicitando ainda um levantamento sobre as emendas e os projetos relatados por ele para saber se Cachoeira, acusado de controlar a máfia dos caça-níqueis e de corromper policiais e políticos em Goiás, foi beneficiado.

Nas gravações, Demóstenes também aparece acertando um suposto lobby pela legalização dos jogos de azar no Congresso em 2009. Em outra conversa, Cachoeira pede ajuda no processo de um delegado e três policiais de Anápolis (GO) acusados de tortura e extorsão. Os dois ainda conversaram sobre um "negócio" milionário na Infraero. Na ocasião, Demóstenes teria se valido da relatoria da CPI do Apagão Aéreo para levantar informações e sondar contratos de informática na estatal.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido decidiu abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda.