Vinte anos depois da principal conferência das Nações Unidas sobre o clima e os problemas ambientais, a Rio-92, ambientalistas estão preocupados com o caminho que a nova edição do evento, a Rio+20, está tomando. Segundo especialistas, o discurso e as atitudes do governo brasileiro mostram que a agenda da conferência pode ficar apenas no discurso e decisões esperadas por todos os países podem não sair do papel.

A Rio-92 ficou conhecida por resultar em tratados internacionais que marcaram temas como as mudanças climáticas, a diversidade biológica e a desertificação. Na época, esses assuntos entraram na pauta de diversos governos. Vários países se comprometeram a pensar o desenvolvimento sustentável com outros olhos.

Na Rio+20, a expectativa inicial era uma revisão de todos os tratados e acordos, com uma análise do que está sendo cumprido e em que é necessário avançar.

Na opinião do biólogo João Paulo Capobianco, fundador do Instituto Socioambiental, a ideia inicial da conferência já se perdeu e a pauta do evento está esvaziada, sem previsão de que se avance nas decisões a respeito do desenvolvimento sustentável.

— Todas as vozes e pessoas que participaram da Rio-92 no Brasil e no exterior estão fazendo um alerta permanente sobre o risco da nova conferência ser um enorme fiasco. Vamos discutir a economia verde, o combate à pobreza, que são assuntos relevantes, porém, não reforçam a urgente necessidade de que os países assumam e cumpram compromissos de redução de gases de efeito estufa e perda da biodiversidade, temas originais do evento.

Retrocesso

Capobianco avalia que a expectativa brasileira de que a Rio+20 fosse uma vitrine do governo brasileiro dificilmente será atingida. De acordo com ele, nos últimos anos o país entrou em "marcha ré" na agenda ambiental. Um grande exemplo é a discussão sobre o novo Código Florestal que está em pauta no Congresso Nacional. O governo trabalha para aprovar o texto apenas depois da conferência - justamente para não passar vergonha devido "aos retrocessos" do texto.

— O código que vão aprovar é rural e não florestal. Na minha opinião, ele é um grande problema e, de certa forma, é o grande símbolo da situação que o Brasil se encontra. Nosso país hoje não tem legitimidade para coordenar uma reunião que trata de questões ambientais.
O coordenador de políticas públicas do Greenpeace no Brasil, Nilo D´Ávila, diz que falta ousadia do país sede para que a conferência se torne palco de decisões internacionais.

— O Brasil não está fazendo o dever de casa. Fez um discurso muito bonito em Copenhague [na Dinamarca] de que não precisava, mas estava criando metas e planos para os próximos anos, mas ficou só no discurso. E hoje em dia está pior ainda, que nem o discurso é positivo. A verdade é que vamos fazer feio na Rio+20, se o discurso continuar atrasado e desenvolvimentista a qualquer preço.

Nilo se refere ao discurso da presidente Dilma Rousseff no Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, realizado na última quarta-feira (4) em Brasília. Na ocasião, a chefe do Executivo disse que na Rio+20 ninguém aceitará discutir "fantasias".

— Eu tenho que explicar para as pessoas como é que elas vão comer, como é que elas vão ter acesso à água, como é que elas vão ter acesso à energia. Eu não posso falar: “olha é possível só com eólica de iluminar o planeta”. Não é. Só com solar, de maneira alguma. [...] Porque ninguém numa conferência dessas também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela não tem espaço, a fantasia.

A presidente já utilizou esse argumento em outras ocasiões. O Palácio do Planalto avalia que o desenvolvimento sustentável tem que ser buscado "encarando o mundo, encarando o fato de que tem milhões e milhões de pessoas sem acesso às condições mínimas de vida". Isso significa, como a presidente disse em seu discurso, buscar novas matrizes energéticas sem deixar de lado o que já é conhecido no Brasil - as hidrelétricas, por exemplo.