Goretti Brandão
A minha intenção ao abordar o assunto sobre a crítica cinematográfica, inclui, além da opinião de Fernando Mendonça, um dos redatores do site Filmologia, outra opinião, desta vez, a de Ricardo Lessa, um dos editores da revista de cinema eletrônica. Ele é jornalista, um dos idealizadores e executores da proposta do site em abrir espaços à crítica cinematográfica em Alagoas. Deste modo, a nossa conversa ainda que sobre o mesmo tema, aconteceu dentro de um contexto bem delimitado: O papel do site, sobre o cinema, o espaço à recepção ou em como os diretores de cinema recebem a crítica cinematográfica, confronto crítico, enfim, assuntos discorridos a partir das observações e dos pontos de vista do editor, acerca do que ocorre no cenário da cinematografia alagoana.
“Toda crítica de cinema tem de trazer consigo alguma reflexão: o estado das coisas é muito mais torturante do que a margem parece querer dizer. Acredito que de tantos outros papéis, um dos mais primordiais do site seja justamente atravessar o pensamento que se mantêm à margem”. As palavras de Ricardo Lessa já definem a essência do Filmologia.
Ele observa que desde a inauguração do site, em 2010, a movimentação na produção cinematográfica de Alagoas deu uma chacoalhada, mas no tocante à percepção do que é e do que pode ser o cinema, o cenário ainda é rude, antiquado, anêmico. Sendo possível visualizar premiações “independentes” destinadas aos curtas metragens produzidos no estado, mas não existe um debate amplificador direcionado a esses filmes, diz ele. E por quê? Lessa pergunta: “Por que se faz filmes em Alagoas, mas não se pensa cinema? Por que se cristaliza essa noção prematura de que primeiro se faz um filme para depois pensá-lo? Por que não inverter, ou melhor, por que não fundir os papéis entre realizadores e pensadores?” São tais perguntas, que segundo o editor, fizeram o Filmologia surgir e que o faz permanecer na ativa.
Se a narrativa clássica é vista como defasada, a mensagem do Filmologia não pode ser compreendida
Eu pergunto a Lessa se ele acha que a crítica de cinema é realmente entendida e, digamos, percebida, tendo com referência e parâmetro, o próprio site. Por Alagoas? Ele me responde com outra pergunta e opina: “Eu acho que o site é muito mais lido do que debatido. Afinal, ele mexeu em alguns calos até então intocáveis. E se é compreendido? Sim e não. Os que poderiam compreendê-lo mais profundamente se negam a alçar o site para um status de confronto, preferem espiá-lo de longe, à espreita, de forma titubeante”.
Além disso, segundo Ricardo, também existe, evidentemente, a parte que não o compreende: “ Se uma editora de cultura do maior jornal do estado diz que a narrativa clássica é uma narrativa defasada, então, uma pessoa dessas não pode compreender a mensagem do Filmologia – porque ao criticar o clássico de forma tão rasteira, ela aniquila também o moderno, o contemporâneo, o pós-moderno, grosso modo: ela aniquila TODO o cinema”, lamenta ele.
O cinema feito em Alagoas
O confronto crítico é uma carência do cinema alagoano identificada por Lessa. Para ele, todo bom cineasta é antes de tudo um bom cinéfilo, e muitas vezes, um bom crítico. “Enquanto não houver uma verdadeira e profunda proliferação do pensamento crítico, o cinema alagoano continuará dedicado a ser exibido somente nos próprios cinemas – que aqui emite sinais de “currais cinematográficos -, será sempre condicionado ao olhar do “cinema amador”, do “filme amador”, não construirá asas mais potentes porque sua delimitação, enquanto filme de confronto – nível de pensamento – é quase que inexistente”, sentencia Ricardo.
Diretores alagoanos ignoram a crítica
E sobre a entrevista recente com Werner Salles, sobre o seu último filme? Por que a crítica alagoana não é citada? O Filmologia é acessado por grande parte dos países europeus: Inglaterra, Portugal, Espanha, Alemanha... No Brasil, com uma média de 130 acessos diários, e aproximadamente 3.900 visitas mensais, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, lideram a visitação ao site. Ironicamente, porque alagoano, Maceió, apesar de uma boa frequência de visitas, registra o seu menor número de acessos. Paradoxos à parte, o site existe. É referência. É acompanhado. É visto. E aí eu pergunto: Há alguma relação entre os cineastas alagoanos e o Filmologia ? O que falta?
Ricardo Lessa explica que aí se encontra o que ele analisa como: esse “pensamento de realizador”, esse espasmo fenomenológico. “Se pensa na imagem que é projetada – nua -, despida dos signos que ela poderia conter: a imagem enquanto presença imediata. Quando se faz um filme e não pensa nos signos cifrados que existem a cada plano, então há algo muito errado e esse equívoco é sintomático: é porque não existe um debate, uma troca de idéias entre o pensar e o realizar”, afirma.
Lessa acredita que os diretores alagoanos ignoram a crítica, porque, segundo ele, em Alagoas até o surgimento do Filmologia, ela não existia. Ele diz que, sinceramente, não sabe se esses diretores alagoanos acessam o site ou se importam com o que está sendo vinculado nele. Existe esse estado das coisas que já faz acelerar a produção cinematográfica em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Rio, Recife em que os novos cineastas andam de braços dados com o pensamento crítico: isso é importante, porque mesmo se por ventura atrapalhar, o confronto já estará lançado. E o que falta? A única vez que o Filmologia recebeu um convite para cobrir alguma mostra foi do Henrique Oliveira para a Mostra Sururu de Cinema, mas por alguns probleminhas não conseguimos cobrir o evento. Só isso.
Pelo número de acessos à matéria anterior e ao número de recomendações nas redes sociais, a partir do Ensaio Geral/ CadaMinuto, percebe-se que há um público interessado no assunto. Seria proficiente que alguém, talvez, cineastas alagoanos, por exemplo, tivessem algo a dizer a respeito dos pontos de vista de Fernando Mendonça e Ricardo Lessa. Com prazer os convido e deixo aberto o espaço do meu blog para o debate!
Para que você acesse
Site: www.filmologia.com.br
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