Goretti Brandão
O sertanejo acorda no dia de hoje, 19 de março, meio aflito e meio esperançoso. Tempo de secura, a poeira, o canto das aves agourentas e a tristeza dos animais, tiram o sono do homem simples, que parece incrível, ainda vive na espera da boa vontade do tempo e dos homens de boa vontade aqui da terra. De sorte que lá em cima há um santo de poder, que ouve a nossa petição, avaliza a nossa situação de sertanejos sofridos, e implora a seu filho Jesus um: ora pro nobis, diante do Deus Todo Poderoso. Valei-nos São José!.
Humilde na hierarquia da Igreja Católica, discreto, amigo dos Anjos que sempre vieram em seu auxílio, São José já fez sua campanha- há meses - pelos corredores celestes e sairá divulgando durante todo o dia, em todas as regiões sertanejas, o resultado dos seus esforços. Fez política das boas: Mexeu pausinhos. Recorreu da influência de Nossa Senhora, que recorreu a Nosso Senhor. Informado de que deveria procurar outros santos, esperou por longas horas, paciente, em gabinetes especiais, a vez de ser ouvido. Valei-nos, São José, santo-homem de palavra!
Dossiês nas mãos; a pasta cheia de documentos e imagens, sobre as pernas, que até poderiam ser os mesmos dos anos anteriores, visto que a paisagem e a situação mudam pouco. Mas, apresenta outros, novos, disso ele faz questão.
Advogado da causa sertaneja, autor de projetos que envolvem a captação de mananciais de água, ele aposta em cada ml do líquido a ser despejado na região do semiárido brasileiro. Valei-nos, São José incansável!
Intercessor da causa nossa, beneficiador da nossa Fé, ele aposta na oração do povo sertanejo para pressionar ministérios celestiais, se utiliza de recursos on-line, para provar que o sertão clama, pede e suplica, uníssono, por uma coisa e por uma causa só. Pequena súplica, justa, ainda mais se comparada a tantos absurdos que se conseguem lá em baixo. Argumenta ele: “É só água o que eles pedem, estão vendo? É só água...” Valei-nos, São José honestíssimo!
O povo fervoroso não faz por menos. Vota em São José. Homem digno, que não faz promessa, mas recebe milhares delas, feitas pelas comadres e compadres, gente das brenhas, como é costume falar por aqui, gente acostumada a aridez, a conhecer nos sinais a ventura ou a desventura. Inverno bom ou inverno mau. Político puríssimo, São José nessas horas é santo das antigas. Comunica que a chuva vem, mandando a chuva!
Não usa e-mails, nem torpedos, nem twitter, nem nada. Ordena que se abram as torneiras lá de cima e que a água escorra pelas grotas e fissuras do chão estriado. Aí o homem confia, a terra confia, o animal confia. É que o santo, conhecedor dos tempos da lavoura, antecipa a aprovação do seu projeto, dando o crédito que o sertanejo espera. A chuva cai e animado, o matuto olha no olho do outro e diz: “Borá plantar que São José deu garantia!”
“Ô meu glorioso São José, nas vossas maiores aflições e atribulações, o anjo não vos valeu? Valei-nos, oh confiável santo-homem político, São José!”
