Muitas são as explicações sobre a crise da economia alagoana.

Todas, como cachorro que tenta morder o próprio rabo, são redundantes no óbvio: não somos pobres, somos paupérrimos.

Os mitos são complexos vitais para a compreensão da condição humana.

Pois bem, voltemos aos mitos.

Nossa matriz lusitana nos legou uma boa dose de Sebastianismo.

É como diz o Fado Tropical: “sabe, no fundo eu sou [somos ou seríamos] um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo...(além da sífilis, é claro)”.

O mito é assim: Dom Sebastião, Rei de Portugal, morre em batalha no além mar, no século XVI. Sem herdeiros, a coroa acaba em mãos espanholas. A narrativa mitológica dá conta da iminente ressurreição do Rei, que retornando do além, e do além mar, libertaria os patrícios do domínio estrangeiro.

Quase seiscentos anos depois, vivemos de Sebastianismo econômico crônico.

A esperar, ad infinitum, uma salvação mitológica e quase sobrenatural que quebre as correntes que nos amarram e nos aprisionam.

Claro que há um tempo em que este Sebastianismo se firma enquanto explicação de mundo por aqui. Arriscaria dizer que este tempo é os anos 90 e a partir destes, com nosso novo ciclo de fogo-morto das usinas e quando as soluções ousadas (tipo Polo Cloroquímico) ou óbvias (tipo turismo) já haviam sido postas.

E neste tempo teve de tudo em termos de saídas grandiloquentes e redentoras. Um arco tão completo e fértil em imaginação que já reuniu de fábrica de helicóptero a polo cinematográfico. De refinaria a estaleiro.

Defendamos os sonhos. E o surrealismo merece respeito, por essencial.

Agora, a saída para o escárnio de nossa situação econômica não virá de navio com Dom Sebastião na proa a nos conduzir.

Quem promete isso ou é mal intencionado, ou de boas intenções acaba por encher ainda mais nossos infernos.

Que já são, lamentavelmente, inúmeros.