Houve um tempo em que sentávamos na porta de casa e lá ficávamos, madrugada à dentro, discutindo as últimas novidades da vizinhança. Lembro-me bem que, à época, após muita diversão em bairros boêmios da cidade, eu acabava perdendo o último ônibus da noite e voltava para casa a pé, na companhia apenas das estrelas e da saudade da namorada que acabara de deixar na porta de casa.
Pois é. Tempo bom aquele em que as tristes notícias que envolviam brutal violência era realidade apenas das grandes metrópoles, o que não era o caso (e ainda não é) da minha amada Maceió. Mas, infelizmente, a capital alagoana, onde nasci e cresci, tem enfrentado um dos maiores paradoxos de toda a sua história: uma cidade pequena, que abriga as mais admiráveis belezas naturais enfrentando problemas de cidade grande, guardando consigo, segundo a mídia estabelecida, o pior índice de violência do país e o terceiro maior do mundo.
Atributos, estes, contra os quais me revolto pois os tais relatórios apresentam tantas inconsistências e, sobretudo, se sustentam em números de um universo amplamente criticado pelos mais importantes estatísticos que, sinceramente, muito me admira o espaço que isto ganhou nos meios de comunicação.
Como acadêmico de jornalismo não posso deixar de transcrever esta triste "notícia" que, aliás, pode ser conferida na matéria publicada no site Agência Brasil, que divulgou um estudo realizado pela organização não governamental (ONG) mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal.
O resultado da pesquisa foi publicado na última sexta-feira (13) - parece que a data foi escolhida a dedo - e listou as 50 cidades mais violentas em todo mundo. De acordo com "especialistas", com a taxa de 135.26 homicídios para um grupo de 100 mil habitantes, Maceió ocupa o terceiro lugar no ranking mundial, perdendo apenas para as cidades de San Pedro Sula, em Honduras, e para o município mexicano, Juárez.
Já a nível nacional, a capital alagoana desbanca tradicionais capitais já conhecidas pelo crime e ocupa, sem muito esforço, o primeiro lugar da criminalidade.
Enxergando os fatos com imparcialidade, percebemos que a problemática se estende a nível estadual: nos últimos meses tenho acompanhado fielmente os índices de homicídios em Alagoas e, só Deus sabe o quanto me custa admitir, mas a verdade é que nosso estado é um dos piores lugares para se viver, no tocante à violência.
A exemplo de meu último post, "Onde está a verdade", insisto mais uma vez com um questionamento onde me imponho entender as tais "verdades".
E eu, enquanto cidadão, pergunto-me onde erramos. Será culpa da instituição família, que pouco a pouco tem perdido seu valor e formado uma juventude sem limites, que sequer respeita seus próprios pais? Ou esta tragédia se deve à falta de iniciativa do Poder Público de encarar, de frente, a onda de violência que assola nosso estado?
Indagações a parte, a verdade é que, em consequência de tudo isto, temos nos escondido atrás de muros e grades, construindo grandes fortalezas, em nome de uma segurança vazia. Deparamo-nos, cada vez mais, perdendo a capacidade de convivência fraternal. Hoje, já não vemos crianças brincando nas ruas até tarde, nem tampouco namorados aproveitando o luar. Pego-me pensando então, em que ambiente meus netos e bisnetos irão crescer? Será que ao menos um dia eles poderão dizer – “Houve um tempo...”