Goretti Brandão
Dando seguimento ao texto sobre o envelhecer, volto à importância do tipo da colheita a ser feita enquanto se caminha pela vida. Alguns, apenas quando são empurrados para a estação invernal é que se apercebem que as mãos estão vazias, que aquilo do que se necessita, após tanta andança, foi por eles desconhecido. A maioria sente a falta e a angústia de não saber nem o que está faltando. Recorro à mitologia grega como suporte à construção e evolução do texto.
O mito grego de Perséfone, diz que a bela jovem, filha de Deméter e Zeus, vivia alegremente e despreocupada com o que quer que fosse, colhendo flores sobre a terra, até que Hades, o deus do mundo dos mortos, apaixona-se por ela e consegue raptá-la, levando a moça para a sua morada. A leitura dos mitos gregos, quando se considera que o berço cultural do ocidente está na Grécia antiga, é uma maneira interessante de buscar entender os estereótipos ou lugares-comuns nas reações humanas, reproduzidas através dos tempos. Observar o que a lenda de Perséfone nos ensina, propõe à pessoa o retorno à própria adolescência.
Vivemos uma época onde a atuação humana, como agente no processo histórico está ameaçada pela perigosa intervenção de conceitos comportamentais, que fragmentam a vida. Aproveitar o ‘aqui e agora’ é uma proposta de falsa experiência de felicidade, que desconhece os desdobramentos e efeitos, que surgem após quaisquer ações que façamos. Mas, a propaganda que constantemente dá ênfase ao prazer momentâneo, o coloca como um direito que todos devem lançar mão.
A historicidade humana é segmentada e as pessoas vivem essa segmentação em ensaios isolados, que servem apenas para rebaixar, o que poderiam ser as emblemáticas experiências da vida, à condição de sinalização de meros acontecimentos, apenas. Os elementos que poderiam emblemar a existência e lhes configurar valor, se perdem a meio caminho. Sem a posse do somatório das experiências vividas, não consegue a pessoa percorrer o caminho da própria individuação. Há o comprometimento do crescer, no sentido de compreender e assimilar os conteúdos, à sua necessária maturação.
Viver despreocupadamente a intensidade do prazer momentâneo, como razão única de felicidade parece ser o que a bela Perséfone fazia, colhendo narcisos pelos campos. Colhendo, um único tipo de flor. Diz uma das versões da lenda, que a jovem ao ver uma planta com centenas de flores perfumadas, foi atraída por ela. Uma fenda abre-se no local e ela vai ter com o senhor do mundo inferior. A lenda ao que parece, quer nos mostrar que existe algo por baixo da beleza e do prazer, que nós, humanos e falívies, precisamos entrar em contato.
Lembra-nos que não é possível fazer colheitas por fazê-las, distraidamente, se guiando apenas pelo prazer de ter flores nas mãos, colhê-las e apreciá-las, tão belas. Tendo sido raptada, conta-nos o mito que Perséfone, no mundo inferior, passou a ser conhecida como Proserpina, rainha do reino subterrâneo. A vigilante das almas. O quanto antes possamos admitir que a juventude não é eterna, como nada sob o sol, mais atenção teremos ao direcionar nossa colheita, nos jardins dos tempos primaveris. Pois que, próximos do envelhecer, é tolice ficarmos perdendo tempo, na tentativa de negar o óbvio. Mais salutar é cultivar a as flores da jovialidade interior. A beleza sinalizada pelas flores, não é emblema do Belo, para quem ultrapassou o signo e soube tornar emblemático o seu significado.
Tendo o consentimento de retornar à superfície, Perséfone o faz todos os anos. Quando reaparece trazendo consigo a primavera e suas flores. É possível, também para os que envelhecem entrarmos em contato com as fragrâncias e a beleza dos jardins da vida. Mesmo quando fomos raptados e estamos - senão vivendo, diante alguns passos, da porta de entrada para o inverno da vida. Diferente, porém, da juventude, não colhemos mais as flores, mas a trazemos junto conosco, como emblema de experiência, para que sejam apreciadas e colhidas pelos outros.
