Ele quase não ri. O corte de cabelo é militar. Os lábios são muito finos, o azul dos olhos fica embaçado atrás das lentes grossas dos óculos. A testa é um mar de rugas, a pele exibe marcas da acne juvenil.

Fala pouco. Em público, é nota zero em carisma. O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, de 54 anos, responsável pela política de pacificação das favelas, aprendeu com o tempo a se esquivar de polêmicas. Mesmo pressionado, não responde o que pensa sobre a legalização de drogas leves. Não diz sim nem não. Ele começou sua vida de policial como repressor de entorpecentes em 1981.

Por que um gaúcho do interior, que toma chimarrão em vez de café, vai à missa todo domingo e não apela para piada ou chavão, virou ídolo popular e capa de revista? Como esse homem tímido, que cuidava da inteligência da Polícia Federal e tinha pânico de multidões, se tornou celebridade numa cidade como o Rio, berço da malandragem e dos artistas das novelas globais – e se impôs como sinônimo de lisura e integridade, duas qualidades em falta no país do jeitinho? Para uma população cansada de marginais ricos e poderosos, Beltrame se torna um herói da ética. Porque prende ou afugenta toda espécie de bandido: com farda e sem farda, de terno e sem terno.