Eles têm vida cigana, mas raízes nordestinas. Adoram o churrasco gaúcho, desde que seja acompanhado de pimenta e muita farinha. Torcem por Bahia, Vitória e até pelo Treze, da Paraíba. Mas nos últimos meses dedicam suas vidas a erguer a nova casa do Grêmio, no bairro Humaitá, zona norte de Porto Alegre. Oriundos de diversos Estados do Norte e Nordeste, os mais de 1,6 mil operários deixam família e amigos para trás com a missão de dar forma ao sonho atual de torcedores e dirigentes. É por suas anônimas mãos que passam a Arena do Grêmio.
Espalhados por vários pontos de Porto Alegre e Região Metropolitana, os homens que constroem o futuro estádio do Grêmio formam uma República Nordestina no Rio Grande do Sul. Aproveitam a falta de mão-de-obra nas capitais e emprestam força braçal em quantidade para grandes obras. De acordo com Eduardo Antonini, presidente da Grêmio Empreendimentos, mais de 80% dos trabalhadores vêm de fora.
Saudade de casa
Wagner dos Santos Silva, 30 anos, está mais do que acostumado a arrumar as malas para rasgar terras distantes com estradas novas ou então alçar ao céu pontes e viadutos.
Nasceu na pequena Barrocas, município com pouco mais de 14 mil habitantes, que fica a 140 quilômetros de Salvador. Já trabalhou no Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo até chegar ao Rio Grande do Sul. Eletricista, é responsável por boa parte da fiação que garantirá energia para a parte interna do novo estádio gremista.
Wagner está há quase um ano em Porto Alegre. Mora na Avenida Assis Brasil, próximo ao Bourbon Shopping, com mais 10 operários da Arena. Parece adaptado ao local, mas deixa escapar um aperto no coração toda vez que fala da cidade natal.
- Não adianta. Nada substitui a nossa terra. Toda vez que eu faço as malas para voltar, sinto um aperto no peito - confessa.
Solteiro, procura opções de lazer para amenizar a saudade de família. Manda boa parte do salário aos parentes, mas, quando sobra, se refestela com os amigos na pista de dança do Scala Club, casa noturna localizada na esquina da Avenida Farrapos com a Rua Dr. João Inácio.
Mas a relação entre colegas de obra vai muito além da farra. Conhecidos de trabalhos anteriores, em diferentes cantos do país, eles encontram no companheiro um alento para a solidão.
- É claro que o fato de sermos todos nordestinos ajuda na convivência. Temos hábitos parecidos e a mesma profissão. No final das contas, o colega passa a ser a nossa família. É a forma que temos de desabafar, contar confidências, já que estamos tão longe dos nossos parentes - explica o baiano de São Sebastião do Pasé, Bruno dos Santos, 25 anos, que cuida do controle das ferragens no futuro estádio tricolor.
Os trabalhadores contratados pela OAS, empresa responsável pelo novo estádio, têm direito a passagem aérea para as suas cidades a cada três meses. Passam oito dias com a família e depois retornam ao duro trabalho na obra. O carpiteiro Valdir Marques de Oliveira, 30 anos, a cada 90 dias ruma para Alto Longa, no interior do Piauí. No retorno à cidadezinha de 13 mil habitantes, percebe que teve sorte ao aportar em Porto Alegre.
- A minha cidade vive da roça. Não tem emprego em indústria. É muito difícil sobreviver lá. Aqui eu vivo muito melhor - sentencia.
O sentimento de Valdir é comum entre os operários da Arena. Eles não pagam moradia, nem alimentação. Com isso, conseguem guardar ou mandar para a família boa parte do salário.
Cozinha se adapta aos nordestinos
A maioria do grupo chega por volta das 7h. A pausa para o almoço é pouco antes do meio-dia. Recebem diariamente da empresa a oferta de salada verde variada, arroz e feijão. Na sexta-feira, dia 9, ainda tinham à disposição purê de batatas, bife com molho vermelho e peixe à milanesa. Na saída do refeitório, um medidor de satisfação eletrônico apontava a opinião dos trabalhadores. Das mais de 180 opiniões, apenas 15 avaliaram o almoço como ótimo.
- Hoje não estava muito bom. Não gosto de peixe - disse um trabalhador ao colega depois de depositar a bandeja na cozinha.
A nutricionista responsável pelas refeições na obra, Cláudia Machado, confirma o alto nível de exigência dos operários. Segundo ela, são 1,5 mil pratos por turno, 360 quilos de arroz e 300 de feijão todos os dias.
- Eles não se contentam com qualquer coisa. Por isso estamos sempre perguntando a opinião deles. Quando detectamos algum desejo, procuramos atender - conta.
E não foi fácil satisfazer o paladar dos nordestinos. De acordo com Cláudia, os cozinheiros também vieram de fora e foram obrigados a incorporar ingredientes pouco usuais à gastronomia gaúcha. Temperos como coentro, além de pimenta e farinha agora são comuns nas mesas da Arena.
E para aguentar oito horas de trabalho, comida pesada. Por sugestão dos trabalhadores, a empresa incorporou no cardápio rabada e feijoada. Toda a semana, um dos dois pratos faz a alegria dos operários.
Corneta no presidente
á com a barriga forrada, mas sob um sol escaldante, os trabalhadores preservam o bom-humor. Nem mesmo o mandatário do clube escapa das provocações. Em visita recente à obra, Paulo Odone enfiava o pé na lama e ajeitava o capacete quando ouviu um grito carregado de sotaque nordestino:
- Presidente, só o Kleber não adianta. Tem que me contratar também para melhorar esse time - disparou um dos trabalhadores, às gargalhadas, como um autêntico gremista.
Descontraído, Odone se aproximou do operário e respondeu de forma educada. Garantiu que montará um time competitivo para 2012. Lembrou que terá à disposição astros como o próprio Gladiador, Douglas e Victor. Esse trio, que ajuda a compor um dos elencos mais caros do Brasil, receberá a incumbência do chefe de forjar um presente mais alegre ao torcedor gremista. Enquanto isso, o suor e o cimento se misturam nos rostos de milhares de anônimos que deixam a bola de lado e tratam de erguer com as próprias mãos o cenário que ilustrará o futuro do Grêmio.
