Com todo respeito, é inútil discutir se houve ou se não houve arrastão em Maceió.

Assim como é inútil debater se os ataques a ônibus em nossa capital foram orquestrados pelo PCC, pelo Comando Vermelho, pela Camorra, pelos cartéis de Cali ou de Medellín... ou pela Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa ou pela Al-Qaeda (embora considerar os movimentos do oriente como criminosos seja somente uma questão de ponto de vista).

Para o pensamento social eles existiram. E ponto final. Se não em concretude, existem plenos em fantasmagoria. Em poder simbólico puro. Eles estão aí, vivos e se mexendo. De nada adianta negar.

Os cariocas, espécie experiente neste modus vivendi (e que só agora experimentam uma experiência crítica, higiênica, mas de impacto com as UPPs) resumem muito bem a situação como uma palavra somente. Uma faca só lâmina:

- Perdeu!

Sim, perdemos há muito, muito tempo. Mas como o debate é obliterado por partidarismos tolos, visões maniqueístas, politicagem inepta ou posturas contraproducentes – quando não preguiçosas, corruptas, falsas e criminosas mesmo – fingimos viver durante muito tempo a ilusão de, se não jogo ganho, no mínimo jogo empatado.

Esta aí colocado, às escâncaras, o maior desafio não de governo, mas sim de estado, de gente, que é ofuscar (já que anular é impossível, sempre) a sombra do terror que passou a nos tolher.

Antes, este terror era subliminar e se manifestava, como espantalho, em tempo de greve de polícia.

- Não saiam às ruas. A polícia está em greve!

Mas hoje não há greve. A não ser de nossa consciência, mal utilizada na busca por justificar ou explicar com teorias mil o óbvio ululante, infelizmente não “rodrigueano”: a miséria que nos cercava durante séculos se avolumou e, agora, passa a nos soterrar com uma avalanche de violência.

Resta-nos o retorno ao estado de natureza, séculos após Hobbes, Locke e Rousseau. Queira Deus que termos nossas orelhas arrancadas nos dentes de forma involuntária não seja gesto corriqueiro em breve.

Mas, retornemos à idéia inicial. Da inutilidade de se debater se houve ou não arrastão.

Drummond filósofo nos ajuda. Diz ele:

O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

Enquanto se elucubra e se defende posições mesquinhas, nossos narizes sangram. Lamentavelmente, não ouro.