Conheci um estudioso de literatura que uma vez me disse que os temas da poesia são poucos, talvez contáveis com uma única mão: dor, saudade, amor, pátria...
E talvez resida no grande segredo do grande poeta a capacidade – restrita a alguns, lamentemos – de fazer míseros argumentos transformarem-se em momentos mágico da vida, da língua e do sentimento que almeja à expressão mas não sabe como se libertar a este devir, aprisionado que está no interior eminentemente pessoal e silencioso de cada um de nós.
Chegamos à barbárie total, isto é fato, há muito. O crime (mais um), que (não) chocou nosso coletivo nesta semana já virou estatística e aparentemente caminhará para a insolvência. Uma colisão de trânsito, uma discussão banal, um garçom sangrando, morto em plena avenida. Seria usuário de drogas? Teria provocado a intriga? Teria clamado pelo homicídio?
Grandes poetas, grandes temas: fraternidade.
Procura-se.
João Cabral de Melo Neto sabe, como ninguém “literalizá-la” em sua poesia.
Um exemplo: “Tecendo a Manhã”, assim nos diz:
"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".
Meus pêsames a mais uma família enlutada e paz e poemas para todos os vitimados pela brutalidade assassina, carcará e covarde alagoana.
Não sejamos “galos” em rinha.
Teçamos, juntos e "galos" que somos, um novo amanhã.