Após ser preso ao tentar fugir da Rocinha (zona sul do Rio), o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, disse em depoimento à Polícia Federal que ao menos metade do que ganhava com a venda de drogas era entregue a policiais na forma de propina. Ele informou à PF o nome de alguns dos policiais - civis e militares - suspeitos de pegar o chamado "arrego", assim como as delegacias e batalhões em que eles atuam.

Nem também relatou, de forma detalhada, algumas situações de extorsão por parte de policiais. Segundo o traficante, ao menos duas vezes, o caixa mensal de venda de drogas fechou sem lucro em razão do pagamento de propinas. Nem contou no depoimento que alguns policiais iam à Rocinha mais de uma vez no mês para recolher o "arrego".

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse na tarde sexta-feira (11) que ainda não teve acesso ao depoimento.

- Não tive acesso ao depoimento, mas faço votos que essa pessoa [Nem] revele detalhes do funcionamento do tráfico e da conduta de agentes públicos.

Beltrame participou na tarde desta sexta do lançamento do projeto Garupa que deve reforçar na capital o patrulhamento de motos do Batalhão de Choque.

Em conversa informal com agentes federais, Nem disse ter orientado traficantes da comunidade a não reagirem quando a favela for tomada para início da implantação da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). A previsão é de que a retomada do território ocorra no domingo (13). Nem disse ainda que a maioria dos criminosos já deixou a comunidade, mas que muitos continuam no local.

Após ser preso, na madrugada desta quinta-feira (10), Nem passou a noite na sala do delegado da DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes), na sede da superintendência da PF, na zona portuária. Ele recusou a comida oferecida pelos policiais.

Na sede da PF, Nem ligou para a mãe e mandou um recado aos filhos para que não faltassem à escola. Entretanto, a movimentação de policiais na favela desde o início desta semana fez com que quase 5.000 alunos de escolas públicas ficassem sem aulas.

O traficante foi transferido para o complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste, no início da tarde de quinta-feira (10). No mesmo veículo blindado foram levados outros 11 criminosos, entres policiais civis, PMs e comparsas de Nem. Um policial militar reformado, apontado como segurança do traficante, foi levado para o BEP (Batalhão Especial Prisional), em Benfica, zona norte.

De lá, ele deve seguir para um presídio federal de segurança máxima, conforme anunciou o governador Sérgio Cabral (PMDB). O governador disse esperar que a ocupação da comunidade transcorra sem confrontos.