O russo Suleyman Kerimov está entre os 120 homens mais ricos do mundo, de acordo com a revista Forbes. Essa fortuna permitiu a ele, em janeiro, se tornar proprietário do Anzhi Makhachkala, clube modesto do Daguestão, região russa de onde veio Suleyman. Foram gastos mais 14 milhões de euros para tirar Zhirkov do Chelsea, mas nada perto dos 87 milhões de euros que, entre transferência e salários, levaram Samuel Eto'o para o Anzhi.

Por trás de todo o dinheiro que jorra da conta bancária de Suleyman para o clube de seu coração está o aval de Roberto Carlos. Homem de confiança do milionário, o brasileiro cujo contrato de três anos totaliza 15 milhões de euros em salários, opina dos valores do bicho até os detalhes na melhoria da infraestrutura, além de sugerir e dar aval a nomes de reforços.

Esse status fez com que Roberto Carlos, de maneira inédita em sua carreira, assumisse o comando do time em meio ao Campeonato Russo. "Quero voltar a ser jogador", diz ele que, desde a mudança, se restringe às funções de treinador. A tendência a médio prazo é de que Roberto se consolide como o homem forte do clube e até, na Copa do Mundo de 2018, possa fazer parte do Comitê Organizador da Rússia.

Nesta segunda parte da entrevista exclusiva concedida ao Terra, Roberto Carlos deixa claro até onde vai seu papel dentro do clube e ao lado de Suleyman Kerimov. Também aponta suas referências na função de treinador, as peculiaridades do Anzhi para o futuro e até o papel novo como volante que vinha desempenhando em campo. "Corro mais que na lateral".

Confira a segunda parte da entrevista exclusiva com Roberto Carlos:

Terra - Nos últimos meses, muitas notícias em que você fala sobre o interesse do Anzhi em jogadores têm sido veiculadas. Chegamos ao ponto em que você disse que se negaria a dar entrevistas. Até que ponto você participa de negociações?
Roberto Carlos - Participei em alguns programas por aqui, dei entrevistas para jornais e sites, e me falam de vários jogadores. Costumo dizer que são importantes, que podem ser úteis, mas não contrato ninguém. A única coisa que posso fazer é levar o nome ao Suleyman, dizer que estão disponíveis, mas não contrato ninguém.

Terra - E você participa desse processo de indicação de forma bem direta?
Roberto Carlos - Até bem pouco tempo, não. Mas para o ano que vem, participo.

Terra - Como você tem se sentido na função de treinador? Há a possilidade de permanecer assim definitivamente?
Roberto Carlos - Quero ser jogador, quero ajudar o Andrei (Gordeyev) se ele continuar ou o treinador que chegar. Não sou treinador, não. Quero voltar a jogar porque tenho mais dois anos de contrato.

Terra - Você esperava que pudesse virar treinador ou foi tudo de repente?
Roberto Carlos - Esperava que pudesse porque quando houve a saída do nosso treinador havia conversado com o pessoal. Temos vários estrangeiros, vários jovens, e saberia que isso poderia ter acontecido. Estou tranquilo, minha vida é longa e por isso que estou sossegado. É treinar forte para não perder o ritmo. Quero ajudar no sistema de jogo, na escalação, essas coisas.

Terra - Quais são os treinadores que te inspiram? O que você tira de cada um?
Roberto Carlos - Aprendi muito com o Capello, com o Vanderlei (Luxemburgo), com o Felipão, Zagallo e Del Bosque. Procurei lembrar o tipo de aquecimento, o treinamento de posse de bola, o treino em campo reduzido. É tudo com muita intensidade, com velocidade. Isso é o que temos feito.

Terra - Em que contexto você se enxerga dentro desse processo de crescimento do Anzhi?
Roberto Carlos - Me vejo no sentido de o proprietário querer ver um clube grande como o Chelsea, o City...então dou opinião sobre a estrutura do Real Madrid, do Barcelona, até mesmo agora do Corinthians. Passo um pouco de cada coisa, sobre o centro de treinamento, sobre os uniformes, os horários, e passo tudo para formar um clube grande e trazer grandes jogadores. É fácil de trabalhar com o Suleyman Kerimov.

Terra - E como é o Suleyman? O que você pode falar sobre ele?
Roberto Carlos - Ele é muito simples. É um cara que não dá entrevistas, mas lê muitas notícias de esporte. É difícil de falar, mas ele me trata com muito respeito e também tenho muito respeito por ele. É alguém que não gosta de aparecer, de dar entrevistas, mas vive no mundo dele, com o trabalho dele. É muito sincero e honesto.

Terra - Como tem sido o contato com o Samuel Eto'o?
Roberto Carlos - É normal, já conhecia ele bastante de quando esteve no Real, desde que ele tinha 20 anos. Vivi mais com ele e o Seedorf do que em casa, então tenho carinho e admiração por ele. É o capitão quando eu não jogo e é responsável por fazer o time ir para a frente, vai ajudar nessa modernização do Anzhi.

Terra - Qual a possibilidade de vocês jogarem a próxima Liga dos Campeões?
Roberto Carlos - Tem que chegar entre os cinco primeiros para buscar isso. Esse ano o Campeonato Russo termina em maio e em 6 de dezembro termina a primeira fase. Vamos ver se a gente consegue chegar entre os cinco e trazer mais algum jogador de nível para o ano que vem. É disputar a Liga dos Campeões ou a Liga Europa.

Terra - Você tem jogado como volante. Como tem sido para você nessa posição diferente?
Roberto Carlos - Mais fácil, porque jogo entre dois zagueiros. E corro até mais que do que se estivesse na lateral. Eu vinha bacana, mas parei para dirigir o time. Tem jogado o Jucilei e o Kamil, que é volante. Vamos ver como fica quando eu voltar.