Os bancos europeus expostos à Grécia e a outras economias fracas da zona do euro viam suas ações desabarem nesta terça-feira, com a perspectiva de que o plano de resgate grego seja submetido a um referendo no país, gerando risco de um calote de dívida.
Às 10h01 (horário de Brasília), o índice do setor bancário da Europa recuava 6,2%, aos 133 pontos, devolvendo todos os ganhos registrados na quinta-feira passada, após o anúncio do plano anticrise da União Europeia (UE).
Se houver referendo, de acordo com os pedidos do primeiro-ministro, e se os cidadãos gregos rejeitarem o impopular plano de ajuda externa do país, pode haver um default desordenado da dívida pública. Isso obrigaria os bancos a sofrer prejuízo de cerca de 75% nos bônus da Grécia que possuem, também aumentando a ameaça de um risco sistêmico, disse Andrew Lim, analista de bancos da Espírito Santo.
"Se nós tivermos um default severo na Grécia, isso exacerbará a situação de Itália e Espanha. Isso só aumenta o problema da Itália, que vai no mesmo caminho, e esse é o risco real", avaliou Lim. Os franceses BNP Paribas, Société Générale e Crédit Agricole tombavam 10%. Eles estão entre os bancos mais expostos à Grécia, por meio de posses de títulos de dívida soberna e empréstimos ao país.
As ações do Deutsche Bank, do Commerzbank e do UniCredit perdiam 8% ou mais, com as notícias gerando temores de que o acordo da semana passada se dissolva e crise se espalhe para Itália e Espanha.
Entenda
No auge da crise de crédito, que se agravou em 2008, a saúde financeira dos bancos no mundo inteiro foi colocada à prova. Os problemas em operações de financiamento imobiliário nos Estados Unidos geraram bilhões em perdas e o sistema bancário não encontrou mais onde emprestar dinheiro. Para diminuir os efeitos da recessão, os países aumentaram os gastos públicos, ampliando as dívidas além dos tetos nacionais. Mas o estímulo não foi suficiente para elevar os Produtos Internos Brutos (PIB) a ponto de garantir o pagamento das contas.
A primeira a entrar em colapso foi a Grécia, cuja dívida pública alcançou 340,227 bilhões de euros em 2010, o que corresponde a 148,6% do PIB. Com a luz amarela acesa, as economias de outros países da região foram inspecionadas mais rigorosamente. Portugal e Irlanda chamaram atenção por conta da fragilidade econômica. No entanto, o fraco crescimento econômico e o aumento da dívida pública na região já atingem grandes economias, como Itália (120% do PIB) e Espanha.
Um fundo de ajuda foi criado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Central Europeu (BCE), com influência da Alemanha, país da região com maior solidez econômica. Contudo, para ter acesso aos pacotes de resgates, as nações precisam se adaptar a rígidas condições impostas pelo FMI. A Grécia foi a primeira a aceitar e viu manifestações contra os cortes de empregos públicos, programas sociais e aumentos de impostos.
Os Estados Unidos atingiram o limite legal de endividamento público - de US$ 14,3 trilhões (cerca de R$ 22,2 trilhões) - no último dia 16 de maio. Na ocasião, o Tesouro usou ajustes de contabilidade, assim como receitas fiscais mais altas que o previsto, para seguir operando normalmente. O governo, então, passou por um longo período de negociações para elevar o teto. O acordo veio só perto do final do prazo (2 de agosto) para evitar uma moratória e prevê um corte de gastos na ordem de US$ 2,4 trilhões (R$ 3,7 trilhões). Mesmo assim, a agência Standard & Poor's retirou a nota máxima (AAA) da dívida americana.