Desde que me entendo por gente que vejo minha mãe ler. Aliás, foi ela, d. Maria Pastora que, como efeito terapêutico, me despertou para este saudável hábito. Eu era muito ansioso, o que me deixava bastante inquieto. De fato, eu era um menino muito danado e a paixão pela
leitura me fez ficar horas a fio do dia, sentado numa poltrona ou esticado na cama, com um livro nas mãos e o olhar nas letras. Antes, por meio de minha avó, d. Teté, aprendera a ler documentos, recibos, os contratos e jornal.

Mamãe lia de tudo. Da literatura, aos tratados científicos; dos livros didáticos, até as apostilas do curso de Letras da Ufal. Através dela, li boa parte da coleção de Eça de Queiróz, Agatha Christie, Vitor Hugo, Balzac, Dostoievisk...; os clássicos brasileiros: como Assis, Ramos, Raquel, Azevedo... A leitura para mim foi uma espécie de droga lisérgica e até hoje ainda causa o mesmo efeito. Acalma-me a alma.

Foi nesse ambiente em que cresci e me apaixonei perdidamente pela língua portuguesa. Às vezes acho que esse romance triplamente qualificado entre eu, a leitura e a escrita me direcionou ao jornalismo.

Sempre tive na literatura uma deusa inacessível. Mas, para minha mãe, não o era. Há dez anos, depois de aposentada como professora da Escola Princesa Izabel, as horas de ócio da aposentadoria foram preenchidas pelos registros da vasta memória de uma mulher mãe de cinco filhos, dois casamentos e vários desafios. “Nunca me senti só. Quando não recebo visita, escrevo”.

A pequena pilha de cadernos rabiscados foi substituía, em seguida, pelas páginas do Word em arquivos de memórias digitais. No contexto, as emoções, as viagens, as impressões sociais e políticas e um caderninho especial, aonde ela anotava os erros dos meus colegas de imprensa que posteriormente me era apresentados em forma de crítica.

Toda essa trajetória da vida de d. Maria Pastora, agora, virou um livro de poemas que será lançado no próximo dia 30, durante a Bienal Internacional do Livro da Ufal, no Centro de Convenções, em Jaraguá.

“Sedução” tem revisão da amiga de longos anos, a jornalista Arlene Miranda e o apoio incondicional da confraria “As Filhas da Princesa”, formada por ex-professoras da escola do CEPA, que defendem o retorno da Monarquia ao comando do governo brasileiro.

“Sedução” não é um compêndio dos jogos do Amor - desse semideus em forma de criança birrenta e mal criada que não sabe o que é lei, mas que se contenta com pequenas migalhas. “É uma crônica da vida, é um livro eclético”, ressaltou mamãe, enquanto tomávamos café da manhã num domingo e eu fazia anotações. “O nome foi escolhido pela Madalena”, uma amiga confreira. Explicou também que três personagens se revezam
nas narrativas, com os pseudônimos PRA, Hanny e Pati, “porque minha irmã mais velha me chamava assim”. Os outros dois ficaram se explicações. Mas, para mim, PRA é a educadora e Hanny, a atriz.

Enfim, uma boa oportunidade para a gente saber o que se passa por dentro das mulheres (assim como minha mãe), que ignoram as regas dos jogos, vão à luta, e dão conta de uma família (longe da presença incômoda do macho por perto), mas sem perder a ternura de ser mulher, a lealdade feminina e a vaidade jamais.