A versão contada à polícia por Sebastião Pereira Gonçalves, cobrador do bondinho de Santa Teresa que perdeu o controle e tombou no dia 27 de agosto, fortaleceu a suspeita de que o condutor do veículo tenha recebido ordens para não voltar à garagem após bater em um ônibus. Sebastião foi um dos 56 feridos no acidente, que ainda deixou seis mortos.
O cobrador contou que, por precaução, o condutor Nelson Correia dos Santos, morto no acidente, resolveu voltar à base sem passageiros, procedimento comum para bondes que apresentem qualquer defeito. Entretanto, pouco antes de chegar à oficina, o bonde fez o retorno e voltou a descer as ladeiras do bairro.
- Tudo isso é muito estranho. Ele deixou os passageiros na Carioca e, de lá, partiu sem ninguém. E quando um bonde sai vazio da Carioca é porque vai para a oficina. Foi isso que o Nelson fez. Mas, de repente, o bonde voltou a descer e pegou passageiros. Eu não entendi nada.
A versão do condutor foi considerada fundamental pelo titular da Delegacia de Santa Teresa (7ª DP). Segundo Tarcísio Jansen, as informações passadas o ajudaram e encaixar muitas peças do “quebra-cabeça” e a encerrar a primeira fase do inquérito, já enviado ao Ministério Público.
- Agora eu já sei de tudo que aconteceu naquele dia e até naquela semana. O depoimento dele fechou a primeira etapa com chave de ouro.
Em matéria publicada no dia 5 de setembro, o R7 deu detalhes sobre uma das principais linhas de investigação da polícia. A suspeita era justamente sobre a possibilidade de um supervisor, único funcionário com autonomia para definir a circulação dos bondes, ter proibido o retorno à base.
Sebastião tem medo de voltar ao trabalho
Mais de um mês após o acidente com o bonde, Sebastião está longe de esquecer a tragédia. A fala ainda prejudicada pela operação na mandíbula estremece ao lembrar os momentos de terror vividos na tarde do dia 27 de agosto. Por isso, o cobrador sequer sabe se terá coragem de voltar ao trabalho.
- Falei com meu chefe que estou traumatizado, estou medroso mesmo. Eu acho que não volto a trabalhar.
Aos 54 anos de idade, sendo 28 dedicados aos bondinhos de Santa Teresa, Sebastião sonha em se aposentar e aproveitar a calmaria do campo, em Mendes, na região sul do Estado.
- Aqui em Mendes eu tenho minha horta, meus bichos. Tudo longe dessa loucura da cidade grande. Hoje eu só quero paz.
Para ficar tranquilo, Sebastião tentará a aposentadoria a partir do ano que vem. Por enquanto, o que tem em mãos é um atestado médico que o assegura repousar em casa, ao menos, até dezembro.