Um tribunal da Arábia Saudita condenou uma mulher a receber dez chicotadas por desafiar a lei que proíbe mulheres de dirigir no reino muçulmano, informou nesta terça-feira (27) a Anistia Internacional.

A sentença foi anunciada apenas dois dias depois de o rei Abdullah garantir às mulheres o direito de votar e de concorrer nas próximas eleições municipais. Ele também prometeu incluí-las no próximo Conselho Shura (o Parlamento saudita) em 2013.

Em comunicado enviado por e-mail, o vice-diretor regional da Anistia no Golfo Persa, Philip Luther, criticou a condenação “inacreditável” e “cruel”.

- A chibatada é um castigo cruel em todas as circunstâncias, mas é inacreditável que as autoridades da Arábia Saudita impuseram chibatadas a uma mulher aparentemente apenas por dirigir um carro.

Luther também criticou as reformas anunciadas pelo rei Abdullah que, segundo ele, “equivalem a muito pouco”.

- Permitir que as mulheres votem nas eleições do conselho é muito bom, mas se elas ainda podem sofrer chibatadas por tentar exercer o seu direito à liberdade de movimento, então as 'reformas' amplamente anunciadas pelo rei equivalem, na verdade, a muito pouco.

Duas outras mulheres também devem enfrentar acusações relacionadas à condução de veículos, segundo o comunicado da Anistia.

Najla Hariri, uma das mulheres acusadas, disse que teve de assinar um termo de compromisso onde promete não dirigir novamente.

- Eles [os policiais] me chamaram para interrogatório sob acusação de desafiar a monarquia no domingo (25). Eu assinei um compromisso de não dirigir novamente, embora a minha condução tenha sido resultado de uma necessidade, não um ato de desafio.

De acordo com a lei islâmica da Arábia Saudita, as mulheres precisam da permissão de um guardião masculino para trabalhar, viajar para o exterior ou se submeter a determinados tipos de cirurgia.

Não há lei que proíbe as mulheres de dirigir, mas há uma lei que exige que os cidadãos usem licenças de motorista locais enquanto estiverem no país. Tais habilitações não são emitidas para as mulheres, o que torna efetivamente ilegal que elas dirijam.

Em maio, protestos pró-democracia varreram a região e algumas mulheres sauditas passaram a exigir o direito de dirigir. Uma campanha apelidada de “Women2Drive” (Mulheres para dirigir, em um trocadilho em inglês) convocou mulheres em mídias sociais como o Twitter e o Facebook para desafiar a regulamentação.

Algumas mulheres postaram no Twitter que dirigiram com sucesso nas ruas de Jidá, Riad (a capital) e Khobar, enquanto outras disseram que foram paradas pela polícia – que depois as liberaram na condição de assinarem um compromisso de não dirigir novamente.

Em 22 de maio, Manal al Sharif, que postou um vídeo no YouTube dirigindo nas ruas de Khobar, foi presa. Ela foi libertada mais tarde, porém seu caso provou ser um impedimento para muitas mulheres.

“Estou muito chateada e incomodada. Creio que esta é uma mensagem que pretende dizer às mulheres que não vão ter todas as suas demandas atendidas”, disse a ativisa Naila Attar, uma das mulheres que organizaram a campanha Baladi (“Meu País”, em árabe) pelo direito de voto às mulheres.

- Estamos trabalhando agora em uma petição ao rei, pedindo-lhe para suspender a ordem de chicotada.