Para o evento real mais cinematográfico de todos os tempos, poderia ser chamada de anacrônica a relação que Hollywood estabeleceu com o de 11 de Setembro de 2001. Dez anos depois dos atentados terroristas que deram realidade àquela imagem para sempre fictícia de Nova York se destruindo em um quase armagedom, é possível dizer que poucos foram os filmes que reproduziram diretamente as imagens dos ataques que provocaram uma ruptura na espinha dorsal americana.
Naturalmente temos os exemplos clássicos de produções que ora optaram por retratar o tema em si com o roteiro quase documental do mal inevitável - Voo 93, de Paul Greengrass - ora foram pelo caminho mais fácil da glorificação do herói americano que não desiste nunca - Torres Gêmeas, de Oliver Stone.
No entanto, a se observar de perto os reflexos dos 11 de Setembro no meio de produção de entretenimento mais eficiente do mundo, o anacronismo inexiste. De um jeito imperceptível aos olhos de quem esperava somente rever aquelas cenas em tela grande - e, quem sabe, em 3D - Hollywood sofre de uma ressaca às avessas que, em vez de ser aliviada com o tempo, só faz crescer com ele. É um cinema, portanto, marcado mais e mais pelas sombras de duas torres desaparecidas, deslocadas no espaço e no tempo.
Sombras surgidas já em 2002 com A Última Noite de Spike Lee. Talvez o primeiro filme a tratar de Nova York pós 11 de Setembro com uma sequência de abertura que mostrava, de diversos ângulos da cidade, as colunas de luz instaladas no Marco Zero meses após os atentados.
Eis então alguns exemplos clássicos dessa ressaca: o cinema catástrofe, de hecatombes e destruições em massa, terminou ajudando a reafirmar a ideia de que os cidadãos nova iorquinos superam tudo: aquecimento global em O Dia Depois de Amanhã (2004), invasão alienígena em Guerra dos Mundos (2005), zumbis famintos em Eu Sou a Lenda (2007) e monstro gigante em Cloverfield (2008), para citar apenas os exemplos mais clássicos.
Ainda mais latente: o gráfico dos filmes de super-heróis escala montanhas íngremes a passos largos nesses últimos 10 anos. E sim, à exceção de produções com mensagens mais requintadas, caso de X-Men 2 (2003) e o recente X-Men Primeira Classe (2011), quase todos estão ali para reafirmar o poder de superação do herói nacionalista, a se falar na ufanista recente estreia do Capitão América. E mesmo que algumas vezes sob o disfarce da culpa cristã americana, caso do Homem de Ferro (2008), eles estão em cena para servir à pátria, em um atualizado positivismo de ordem, progresso e, claro, reviravolta.
O caso do Homem de Ferro, aliás, é oportuno para ilustrar outro sintoma da ressaca hollywoodiana do 11 de Setembro. Não demorou muito para que, após a implantação da política bélica americana em cima do Afeganistão e do Iraque como parte da chamada "Guerra ao Terror", Hollywood começasse a apresentar seus primeiros sintomas de um heroísmo quase sempre disfarçado de mea-culpa. A lembrar que o primeiro filme com o personagem cínico de Tony Stark (Robert Downey Jr.) começa sua odisseia cinematográfica no Afeganistão ocupado pelo exército americano, um lugar de terroristas assassinos e, para não pegar mal, alguns poucos cidadãos de bem.
Essa ocupação americana em terras estrangeiras, legitimada pelos ataques do 11 de Setembro, rendeu e ainda rende à Hollywood roteiros que deliberam sobre as repercussões dramáticas ou mesmo românticas dos novos heróis da classe média militar.
Casos pontuais na categoria dramática são No Vale das Sombras (2007), O Suspeito (2007), o vencedor do Oscar Guerra ao Terror (2008) e, mais recente, Zona Verde (2010). Na categoria do romance cujo sofrimento amoroso quase perdoa o instinto destruidor das guerras, temos O Mensageiro (2009), Entre Irmãos (2009) e Querido John (2010). Todos, sem exceção, carregam uma mensagem de "falha nossa" americana diante da política invasora. Mas em todos, também sem exceção, prevalece a ideia de que a bravura do ser americano - não a ação, mas o indivíduo - está acima da política (no que entendemos que essa é, de fato, a mensagem política em si).
Importante notar dois filmes que, não curiosamente, passaram desapercebidos pelo esquema das grandes distribuidoras e que, assim como os exemplos citados acima, deliberam sobre essa ocupação americana no Afeganistão e Iraque. Estamos falando de Essential Killing e Enterrado Vivo, ambos de 2010 e ambos títulos de um ator só: Vincent Gallo, como um fugitivo do Afeganistão em Essential Killing, e Ryan Reynolds, como um motorista americano feito refém no Iraque em Enterrado Vivo.
Gallo no branco infinito da neve americana, e Reynolds na escuridão profunda de um caixão no Iraque, servem mais lucidamente como paralelo a esse sentimento coletivo da América após os ataques terroristas em população civil. De um jeito quase profético, esses dois filmes espelham a crise psicológica americana do pós 11 de Setembro com personagens que, ao contrário daquelas pessoas abruptamente mortas nos ataques de 2001, definham aos poucos, quase como que remoendo os que já morreram. Não é de se estranhar que ambos os filmes sejam dirigidos por estrangeiros: o polonês Jerzy Skolimowski e o espanhol Rodrigo Cortés, respectivamente.