A fala mansa, o olhar concentrado e o andar elegante poderiam até ser características de quem fique alheio a qualquer decisão. Não com Ricardo Gomes. De maneira discreta, o técnico impôs seu estilo e liderança ao Vasco. Antes em meio a águas revoltas, a caravela cruz-maltina navega por mares calmos que permitem até que o técnico escale um time misto nesta quinta, contra o Palmeiras, na estreia na Copa Sul-Americana. A partida terá transmissão em tempo real pelo LANCENET!.

Adaptado, Ricardo Gomes já percorre os caminhos de São Januário com habilidade. Assim que chegou ao clube, estudou o panorama, conversou por vezes com o auxiliar Gaúcho. Encontrou um elenco com problemas de vestiário. Seus dois expoentes, Carlos Alberto e Felipe, afastados por indisciplina, e um time com o pior início de Campeonato Carioca da história.

Mas não se assustou. Aos poucos, posicionou-se frente aos desafios e conseguiu harmonizar o grupo com conversa e, também, cobranças. A resposta foi quase imediata, com o título da Copa do Brasil. E entende que o técnico atualmente não pode abrir mão da liderança.

- Quanto mais passa o tempo e mais espaço tem o futebol, mais o treinador vai se meter no que pode influenciar. Não vou ficar na beira do campo e esperar a sorte chegar. Tenho de ir lá fazer com que essas coisas externas venham me ajudar, não atrapalhar - disse Ricardo Gomes.

A tarefa nem sempre é fácil. Ao contornar problemas que extrapolam a técnica e a tática, o risco de exposição fica cada vez mais evidente. Mas o técnico não é daqueles que se furta de uma decisão. Embora não seja explosivo como o rival desta noite, Felipão, já foi, Ricardo mantém a postura firme e relembra seus tempos de zagueiro para levar o dia a dia.

- Há uma série de cenários aí nos quais você deve estar pronto para responder. E tem de responder, não pode se omitir. Se o cara se omite, vai embora cedo. É uma bola dividida e você não pode fugir - acrescentou, firme, o técnico cruz-maltino.

Com uma liderança discreta e eficiente, Ricardo apontou a bússola vascaína para a paz.

Bate-bola com Ricardo Gomes em entrevista ao LANCENET!, em São Januário

1) Quais características são necessárias para exercer a liderança da melhor maneira?

R: Honestidade no trabalho. Sem isso tem vida curta. Mas competência também. E um bom feeling para o momento de apertar, de afrouxar. Isso não tem receita. Depois o feeling da administração. Isso faz com que você tenha o grupo por maior tempo na mão. É fundamental.

2) Como distinguir um líder?

R: É personalidade. O cara é ou não é líder. Cada um com a sua personalidade. Um é durão, outro fala baixo, outro fala alto. Há quem fale alto e não seja líder.

3) Participar das atividades extracampo é necessário ao técnico?

R: Nem sempre é necessário você pensar no que está acontecendo fora das quatro linhas. Quando não é, melhor ainda. Por vezes, tudo que acontece em um clube de futebol tem interferência no seu trabalho. Se você sente que tem algum comportamento de torcida, dirigente ou imprensa... aí é confronto, amigo. Não tem jeito.

4) É uma tendência do futebol essa interferência extracampo?

R: É mundial. Hoje estamos com um espaço graças a vocês (imprensa) que é estrondoso. Você tem esse espaço, mas responde por ele. Treinador tem de estar ligado. O que vocês fazem aqui tem repercussão no jogador. Por vezes é com empresário que você tem de brigar, é com assessor de imprensa do jogador.