Alheios ao que acontecia em Croydon na noite de segunda-feira, Vanessa Cristina Placedes, 31 anos, e Dirceu Diba, 33 anos, mostravam o centro de Londres para o pequeno Felipe, 3 anos. Turistas de primeira viagem na cidade, o casal de Curitiba fazia compras e visitava as atrações turísticas da capital britânica.
Só se deram conta de que estavam em apuros, quando decidiram voltar para o hotel - em Croydon. "No metrô já nos avisaram que o transporte público até lá estava interrompido", diz Diba. Sem saber o que fazer, procuraram um táxi que pudesse levá-los em segurança ao hotel. "Daí descobrimos que ninguém queria vir pra esta área."
Depois de duas horas de tentativas, Felipe já dormia nos braços do pai. A mãe, então, foi abordada por um taxista. "Ele me disse que estava indo contra as ordens da empresa de táxi em solidariedade a nós e ao Felipe", revela Vanessa. "Foi bem comovente!"
Começava ali a aventura que levou o casal pelos meandros dos quebra-quebras em Croydon. "Tinha muita gente mascarada na rua quebrando tudo", lembra Diba. "O taxista estava assustado e nós também. Ele teve de fazer várias manobras de última hora porque todas as indicações do GPS acabavam levando a ruas interditadas pelos vândalos."
A passagem de quatro dias por Londres é o início de um tour da família pela Europa. "Ficamos aqui até quinta-feira e depois vamos para outros países", revela Vanessa. "Não esperávamos nos deparar com algo assim na Europa, mas isso não tira nosso entusiasmo por Londres ou pelo restante da viagem. Hoje acabamos ficando no hotel descansando, mas amanhã já voltamos à programação turística intensa no centro da cidade."
"Só vou embora se destruírem a universidade"
Outra que não percebeu a ameaça na porta de casa foi a estudante Lívia Daniela Thimotheo Pereira, 24 anos, que mora em Hackney. Lívia estava em Dalston - um dos bairros frequentados pela juventude boêmia no norte da cidade - na noite de sábado. "Eu não sabia, mas o Kingsland Shopping foi saqueado. E eu estava do lado dele."
Na segunda-feira à noite, Lívia estava em Brick Lane - outra área bastante frequentada pela juventude da capital - com um amigo. Depois de conversarem um pouco sobre a confusão dos dias anteriores, resolveram ir para a Cargo, uma casa noturna nas redondezas. "Achei que lá estaríamos mais protegidos, pois é um local fechado", lembra.
Enquanto estava lá, Lívia não parava de receber mensagens de amigos perguntando se estava bem. "Com tanto boato de áreas atacadas e potenciais alvos, acabamos achando melhor ir pra casa." Apenas quando chegou em casa e ligou a TV, Lívia conseguiu ter a dimensão do que poderia ter encontrado pela frente. "Quando vi que houve áreas afetadas perto de casa e perto dos lugares em que estive nos últimos dias, senti medo", confessa. "Dá pra ver, porém, que a violência era contra o sistema, não contra o indivíduo."
Lívia ainda deve ficar pelo menos mais um ano em Londres. "Começo o mestrado em outubro e só vou embora antes de terminar se destruírem a universidade", brinca. "Isso vai entrar para a história da cidade, mas não me faz ter medo de morar aqui."
Sem medo de andar na rua
Leonardo Tassi Nakatani, 27 anos, tem chegado sempre 'atrasado' ou 'adiantado' aos locais de confusão. No sábado, estava em Tottenham pouco antes de os primeiros distúrbios começarem. "Tenho amigos que viram o princípio da confusão, mas eu não vi nada", conta.
Na noite de segunda-feira, com a intensificação dos ataques, a gerência do Hotel Intercontinental, onde Nakatani trabalha, ofereceu hospedagem gratuita aos funcionários que não se sentissem seguros para voltar para suas casas. "Eu achei que daria pra ir pra casa tranquilamente e recusei a oferta", diz. Enquanto esperava o ônibus, viu muitas viaturas passando em alta velocidade em direção a Bayswater - área no oeste da capital inglesa onde também houve saques em lojas - e resolveu acompanhar as notícias pelo Twitter.
Ao pegar o metrô em Marble Arch, por volta das 23h30, viu que uma estação perto de sua casa estava fechada, mas resolveu seguir em frente. "Tudo parecia bem calmo", lembra. No caminho, outra estação - Bethnal Green, perto de Hackney onde houve confusão na segunda-feira a partir das 15h30 - foi fechada também.
Nakatani só percebeu que seu bairro, Upton Park, havia sido atingido quando desceu do metrô e viu alguns pedaços de vidro espalhados pela rua. "O choque veio mesmo quando cheguei à porta do supermercado Tesco e vi que ele estava fechado e as vitrines quebradas." Ele já estava voltando pra casa quando começou a escutar estalos bem altos e achou que fosse um tiroteio.
Quando se virou, viu um clarão vermelho na distância. "Tentei me aproximar o máximo possível pra ver o que era, mas não consegui chegar muito perto." Nakatani se espantou com a violência dos atos de vandalismo, mas diz que isso não afeta a visão que tem de Londres. "Não tive medo de andar na rua em nenhum momento. Não houve ataques a civis e a polícia não agia com violência. Isso não altera minha vontade de ficar aqui."