Críticas sobre o modelo de autorregulação da mídia impressa no Reino Unido não começaram com a revelação do escândalo de grampos do tabloide "News of the World''.

Mas, aliada ao furor causado pelas revelações de invasão de privacidade de celebridades e vítimas de crimes, a instauração de um inquérito específico sobre a atuação da mídia, a pedido do premier David Cameron, reacendeu uma discussão sobre a ética na busca de informações cujo único consenso é a necessidade de mudanças.

Seu alcance desperta trocas de acusações entre setores que vão das redações ao Poder Legislativo.

Deputados e editores concordam com o argumento de que a Comissão de Queixas sobre a Imprensa (PCC) - criada em 1991 para investigar denúncias contra a atuação da imprensa escrita e manter um Código Editorial de Práticas - provou ser um instrumento ineficaz para garantir um comportamento ético de jornais e similares. Basta observar, por exemplo, que um dos artigos do código proíbe justamente o uso de escutas telefônicas.

A comissão tampouco tem poderes para punir, e jornais não são obrigados a se associar - o grupo que controla os jornais "Daily Express" e "Sunday Express" é um exemplo.

O problema, porém, começa na hora de discutir quem será o substituto. Nos últimos dias, acadêmicos, políticos e mesmo jornalistas defenderam a criação de um sistema de regulação independente, nos moldes da agência Ofcom, responsável pela regulação da TV e do rádio.

Mas a comparação despertou acusações de tentativa de controle da imprensa por parte das autoridades, pois a Ofcom, embora seja independente do governo, tem verbas públicas e um código draconiano que, entre outras coisas, impõe a imparcialidade política.

- A imprensa britânica tem uma tradição liberal que inclui a liberdade de declarar preferências políticas - pondera o jornalista e acadêmico Charlie Beckett, diretor do Polis, o centro de estudos de mídia da London School of Economics. - Não se podem colocar todos os jornais no mesmo saco por causa do "News of the World". O que aconteceu no tabloide foi crime e, para isso, existem leis. O resto é apenas uma reação populista dos políticos.