Encerrada a participação na Copa América, o técnico Mano Menezes inicia na Seleção Brasileira uma conciliação de trabalhos que provocou desgaste nos treinadores que passaram pelo cargo nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que começará a montar o time que disputará a Olimpíada de Londres em 2012, o treinador não poderá se descuidar do time principal, que encerrou o torneio sul-americano com uma eliminação nas quartas de final.
A partir do próximo amistoso, contra a Alemanha no dia 10 de agosto, Mano aumentará a presença de jogadores com idade olímpica - menos de 23 anos - ainda precisando de resultados convincentes no cargo. Além do fracasso na Copa América, o treinador acumula derrotas para Argentina e França, empate para Holanda, a falta de um time ideal e incontestável e um futebol ainda longe de empolgar.
Assim, a tendência é de um rejuvenescimento ainda maior da Seleção justamente em um momento de pressão por vitórias e uma tabela que inclui clássicos contra a Alemanha, Espanha, Itália e Argentina. O cenário, no entanto, não muda o planejamento de ao final da Copa América iniciar o projeto para dar ao Brasil sua primeira medalha de ouro olímpica na modalidade.
"Precisamos aumentar os jogadores com idade olímpica na Seleção principal, só não podemos colocar na hora errada para acabar perdendo a confiança", afirmou o treinador, que ainda lidará com a incerteza em relação à utilização de jogadores que atuam na Europa. A Olimpíada de Londres será disputada em agosto/setembro e, como não faz parte do calendário da Fifa, os clubes não são obrigados a liberar os jogadores.
"A Olimpíada é a próxima etapa marcante do nosso trabalho e o planejamento vai ser complexo. Muitos jogadores da Seleção principal fazem parte dos planos olímpicos, mas a Olimpíada não faz parte do calendário Fifa, então é difícil que os jogadores da Europa possam participar", completou.
Pesa ainda contra Mano a obsessão brasileira pela primeira medalha de ouro olímpica. Nos dois trabalhos anteriores, de Carlos Alberto Parreira e Dunga, o fracasso nos Jogos coincidiram com o momento de maior pressão e cobranças. Este recente histórico indica que Mano não contará com a tolerância e compreensão da torcida de que desenvolve um trabalho momentaneamente paralelo.
Ciente de que enfrentaria naturalmente obstáculos nesta sua segunda etapa de trabalho, Mano imaginava como cenário perfeito um título da Copa América, que lhe garantiria sossego para o início do projeto olímpico. Não conseguiu e enfrenta os primeiros sinais de desgaste junto à opinião pública e torcedores. Durante os jogos do torneio ele recebeu as primeiras contestações das arquibancadas, abafadas pela dispersão dos brasileiros nos estádios.
No seu discurso após a eliminação, expôs o dilema que viverá até 2012 ao colocar também como prioridade a construção de um time consistente para a Copa de 2014. Garantido no cargo, Mano trabalha com a convicção de que será o treinador do Mundial no País, mas sabe que para isso se confirmar é necessário manter o mínimo de regularidade.
"O presidente da CBF (Ricardo Teixeira) tem claro aquilo que precisamos fazer e vamos continuar fazendo até que se pense diferente. Não precisa externamente as pessoas ficarem preocupadas com isso. O Brasil não vai chegar em 2014 cambaleando e se eu sentir que não tenho condições de levar o Brasil firme, não continuo", afirmou o treinador.
Da Seleção que disputou a Copa América, apenas cinco possuem idade olímpica: Neymar, Ganso, Pato, Lucas e Sandro. "A transformação é cuidadosa exatamente pra proteger aqueles que têm potencial grande e vão chegar à Seleção em 2014. Tomaremos cuidados pra não fazer nada apressadamente. Sabemos por experiências anteriores que o caminho é esse", disse.
A tendência é que Mano evite neste período a separação entre time olímpico e um principal. Em 2008, a opção provocou um dos maiores micos da Seleção em um jogo realizado em junho, em Volta Redonda. No auge da pressão pela saída de Dunga, os olímpicos brasileiros enfrentaram um combinado carioca, ficaram no 0 a 0 e foram vaiados ostensivamente.