Há uma sensação de fraude consentida em um show de banda cover. Sabe-se que aquilo é um simulacro. Emociona-se com a performance macaqueada de enésima mão e se protagoniza um espetáculo no final deprimente, do qual só faz sentido participar e curtir (até muito!) se conscientes estivermos do ridículo de nossa presença lá e de que, afinal, é só passatempo em formato de diversão, nada mais.
A cópia de passos, trejeitos, tiques e tudo mais dos artistas surpreende pela resignação. Quantas vezes assistiram com atenção de vestibulando dedicado aos VHSs, aos DVDs do conjunto? Quantas vezes abdicaram de amores, ócio e dinheiro para copiarem aqueles a serem copiados? Imagino: “- volta a fita, esqueci o lado de girar a cabeça!”. “- Avança o DVD, vamos ver como ele rebola na segunda estrofe!”. “- Congela! O bigode é mais aparado e o peito tem que ter cabelo, tá vendo!”.
E as perucas são (foram) um "espetáculo" que realçou o grotesco. Todas enormes, desengonçadas, aviltantes quanto à dignidade humana. Lastimáveis e lamentáveis.
Estranho ver a catarse de alguns. É claro que se dança e se ri, sem remorsos. Eu o fiz! “É legal”. Mas entre ver a cópia e o original há um fosso imensurável. No caso do cover de Fred Mercury que reencarnou no sábado por estas bandas, a nacionalidade argentina da Rainha torna a encenação ainda mais folclórica. E o atraso de quase duas horas para o início do show, somado ao fato de centenas de pessoas terem ficado parte deste tempo do lado de fora da "casa de espetáculo" sob ameaça de um dilúvio, quase retirou por completo a graça da piada e o almejado brilho da noite.
Ainda sobre catarse, vi choros, semi convulsões, delírios. Todas e todas justificáveis diante do poder e da força de um bom rock and roll, um dos sons emancipadores do ocidente a partir da segunda metade do século XX mas que por aqui quase ainda não chegou. Basta ver aquelas caixas de som gigantes que ornamentam os automóveis poluindo nosso meio ambiente com canções inclassificáveis, nojentas mesmo, inaudíveis e, sobretudo, vulgares. Odiáveis!
Encarceradas no modelo e nos protótipos de fãs, algumas manifestações exaltadas dos presentes tornavam-se tão falsas quanto as postiças madeixas do Brian May de Buenos Aires.
Mas excluindo-se o fato de que impera por aqui o provincianismo de não ir para ver, mas sim de ir para ser visto, o pequeno público presente fez sua parte e garantiu uma noite de mais risos que tiros. E é disso que precisamos.
God Save The Queen!
God Save The Queen
17/07/2011, 22:40 - Clayton Santos
Por Clayton Santos
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