Alguns personagens do 17 de julho de 1997 – tido como uma das últimas insurreições do século XX, por alguns historiadores – devem ainda fazer as mais diversas reflexões sobre aquele período; e as leituras possíveis para a sucessão de fatos que levou o ex-governador Divaldo Suruagy à renúncia.
O Estado de Alagoas – muitos ainda devem sentir o peso disto em suas memórias – vivia um momento dificílimo. O funcionalismo com nove folhas salariais atrasadas, a inadimplência no comércio, a economia em frangalhos, e o governador – eleito com mais de 80% - perdia o controle político e deixava o Palácio Floriano Peixoto (que fez jus, naquele momento, ao seu apelido: Palácio dos Martírios) acéfalo, em função de ouvir e crer demais em assessores, o que incluía o então secretário da Fazenda, senhor Pereira.
Resultado: uma revolta de caráter popular que derrubou Suruagy, um dos políticos que já foi mito dentro de Alagoas. Para alguns, fez-se a vontade popular; para outros, um ato que levou o povo às ruas pelo estômago, já que não havia salário e nem o que comer. Assim, a conjuntura teria possibilitado a queda de Suruagy, mas ao mesmo tempo permitido um acordo entre as elites, que fez com que Manoel Gomes de Barros – o vice – continuasse no poder, como se nascesse ali outro governo eleito pelo povo.
Este blogueiro, relembrando o 17 de julho conversou com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Omar Coelho. Mas não por ser o presidente da Ordem, cargo que ocupa atualmente. O interesse de ouvir Coelho se dá pelo fato dele ter estado à frente – na época de Suruagy – da Associação dos Procuradores do Estado, que apresentou inclusive um pedido de impeachment em 1996, mas o ex-governador contava com 26 dos 27 deputados estaduais. Sua única opositora: Heloísa Helena, na época ainda carregando a bandeira petista.
O procurador
Omar Coelho ainda saiu da oposição ao governo Suruagy, que descreve como “sem comando”, para a função de procurador Geral de Manoel Gomes de Barros. Para Coelho, Mano – apesar do conservadorismo e das controvérsias que cercam a figura histórica do ex-governador – foi um “intervalo de seriedade em uma década perdida”. Será? Bem, o 17 de julho é sempre uma história que merece ser recontada. Quanto mais o tempo passa, mais a diminuição das paixões sobre o fato, que levou o povo à praça para derrubar o governador, é analisado de forma mais interessante e reveladora.
Segundo Omar Coelho, a queda de Suruagy é um fato lamentável para a recente história política alagoana. “Havíamos tido uma década de 80 perdida, com os governos que passaram. Depois, uma década de 90 com estes acontecimentos. O governo Mano foi um governo de seriedade, mas durou muito pouco”, ressalta.
“Naquela época, lembro que o governador Divaldo Suruagy acreditava demais em seus assessores. Eu mesmo fui levar denúncias ao governador, mas ele chamava os assessores, que o convencia de que estava tudo bem. Antes disto, cheguei a levar 23 medidas moralizadoras que nós – da Associação – acreditávamos que precisavam serem implantadas, mas não foram adotadas”, destacou Coelho.
Quem lembra, sabe que as medidas foram impopulares e visava inclusive à demissão de funcionários e o reenquadramento de servidores. Coelho se disse inclusive ameaçado por conta de tais acontecimentos. “Tive que me resguardar. Isto fez com que existissem ameaças contra mim, entre 1995 e 1996. As propostas, entretanto, ficaram de lado”, coloca Coelho, ao fazer a análise de sua versão para os fatos.
Ao lembrar o 17 de julho, o presidente Omar Coêlho destaca que a data representa o poder da “sociedade civil organizada”. “Ela percebe que pode derrubar governos, com o apoio inclusive de policiais, como aconteceu. Porém, para isto, há uma necessidade de que o governo esteja – como estava – com completa ausência de comando, que foi o que aconteceu na época. Toda vez que eu levava uma denúncia para o governador, via que o Estado estava sem um comando firme. O governador Divaldo Suruagy não se impunha”, finaliza.
O esquerdista
O fato é que a história tem ainda vários personagens – muitos dos quais ainda caminham pelo poder e participaram do acordo que permitiu a saída de Suruagy e a continuidade de Mano, com o apoio – na época – do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), o que foi essencial para a regularização de débitos, como já colocou o ex-deputado estadual Paulo Fernando dos Santos, o Paulão (PT), em um período que até a Secretaria da Fazenda passou por uma “intervenção branca” com o coronel Longo.
Também conversei com Paulão sobre a data. Líder sindicalista expressivo – na época – Paulão assumia seu primeiro mandato como vereador. E assim, ele avalia: “as consequências históricas são sempre positivas, quando as forças buscam melhorar o processo humanitário. A data é simbólica, sobretudo na visão da classe trabalhadora, mas está longe de ser a revolta ideológica que muitos colocam. Foi uma briga do estômago. As pessoas estavam sem salários, com fome, houve suicídios. A insatisfação chegou ao auge com a entrada dos militares e policiais na manifestação que foi à praça e pediu a saída do governador”, coloca.
Para Paulão, que acompanhou os fatos como edil da capital alagoana, o resultado foi favorável às elites. “Para que o Suruagy deixasse o cargo, houve um acordo entre as elites, com poder Executivo e Legislativo e envolvendo também o governo federal, na pessoa do Fernando Henrique Cardoso, que teria aceitado o acordo subsidiando as folhas salariais em atraso”.
O deputado estadual ainda tece críticas à Assembleia Legislativa da época – casa a qual, depois, fez parte – os chamando de oportunista. “Todos – com exceção de Heloísa Helena – estavam ao lado de Suruagy. Na hora em que o cerco apertou e que o povo foi à praça, apenas o deputado Temóteo Correia permaneceu apoiando Suruagy até o fim”. A frouxidão dos parlamentares se deu por conta do levante popular, na avaliação de Paulão.
Estão aí dois personagens que conversaram com este blogueiro sobre aquele acontecimento. É a visão deles, existem outras visões, mas – o importante – é que a data nunca passe em branco e seja sempre refletida, para que tenhamos – cada vez com mais clareza – as nuanças e minúcias do processo que nos trouxe até aqui!
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