Encontrada morta e amarrada no fundo de um poço, Aya não seria mais que uma vítima palestina da indulgência para com os "crimes de defesa da honra", se não despertasse uma mobilização sem precedentes, forçando as autoridades a reagir.
Ante a emoção da aldeia e das opiniões, o presidente Mahmud Abbas anunciou a revisão de uma antiga lei: a invocação da honra familiar não permitirá mais ao assassino, em princípio, ser beneficiado com circunstâncias atenuantes e, assim, com penas mais suaves para esse tipo de crime.
Ao contrário das mortes precedentes de outras jovens, acusadas de terem "desonrado" suas famílias, este ultimo caso não foi sufocado. A família de Aya al-Baradeiyah, 21 anos, quebrou a capa do silêncio e da vergonha que envolve este tipo de crime e mobilizou sua aldeia de Sourif na Cisjordânia, inflamada por um assassinato particularmente hediondo.
Pela primeira vez, por causa do caráter medonho do 'fait divers', mas também pela reação das feministas, a impunidade foi rompida.
Estudante de inglês na Universidade de Hebron, no sul do território palestino, Aya, que usava o véu, desapareceu há mais de um ano.
Seu corpo foi descoberto em maio, num poço, deixado lá por um tio, com dois cúmplices, porque suspeitavam de que ela mantivesse uma relação clandestina com um pretendente não aceito pela família.
"Foi um crime atroz, eles a amarraram em um carro e a arrastaram até o poço, surrando-a e a jogando ainda viva e amarrada", afirmou à AFP Ramadan Awad, chefe de polícia de Hebron (sul).
O tio "é um homem muito limitado, pertencendo a um desses grupos de ''repressão ao vício e à promoção da virtude''", a exemplo das brigadas oficiais na Arábia Saudita, informou uma fonte da segurança.
"Era moça corajosa e ambiciosa, que queria seu diploma, além de amar a pintura", afirma sua mãe, Fatima.
Desde o anúncio da descoberta macabra, foram realizadas manifestações na aldeia e na Cisjordânia para exigir que os assassinos não possam mais se beneficiar do arcabouço jurídico previsto pelo código penal jordaniano de 1960, em vigor na Cisjordânia, para os autores dos "crimes de defesa da honra".
Menos de uma semana depois, o secretário-geral da presidência palestina, Tayeb Abdelrahim, telefonava durante uma emissão de televisão ao vivo de Sourif para anunciar que Abbas ia promulgar por decreto uma emenda excluindo "a honra" das circunstâncias atenuantes.
Uma emenda semelhante foi apresentada em 2005 ao Conselho legislativo, paralisado desde 2007 pela divisão entre o Hamas e o Fatah de Abbas.
"Nada nos devolverá Aya, mas o decreto do presidente é excelente, esses criminosos devem pagar por seus atos, o presidente não deve ter nenhuma clemência, a fim de dar um exemplo", estima Ibrahim al-Baradeiyah, o pai da vítima.
"Foi porque elevamos a voz, batemos em todas as portas, que foi criada solidariedade em torno do caso de Aya, que passou a ser um episódio que pode acontecer com todas as nossas filhas", conta Yasser al-Baradeiyah, um parente. "Se não fosse isso, o crime teria sido ignorado como todos os outros".
Os palestinos em maioria (75%) aprovam a modificação da lei, segundo pesquisa realizada em meados de junho.
"A decisão do presidente coroa o combate feminista, afirma Amal al-Joueabeh, coordenadora do Centro de Conselho Jurídico e Social para as mulheres de Hebron.
"O horror deste crime, a solidariedade popular e a mobilização imediata das organizações feministas, somadas à cobertura intensa da mídia, foram os principais fatores que garantiram essa decisão histórica", considerou ela.
Segundo entidades feministas, 29 mulheres foram vítimas de crimes desse tipo entre 2007 e 2010 e outras nove foram forçadas ao suicídio nos Territórios Palestinos.