A maioria das mais de 200 mulheres que foram estupradas pelas tropas sob comando de um ex-combatente rebelde da República Democrática do Congo (RDC) entre 10 e 13 de junho está sofrendo com o repúdio de seus maridos, apesar de sua trágica situação.
Segundo um cálculo da agência de notícias France Presse, baseado em informações de fontes médicas da província de Kivu do Sul (leste do país), 248 mulheres foram estupradas por cerca de 150 soldados armados dirigidos pelo coronel Niragire Kulimushi, ou "Kifaru". O coronel é um ex-miliciano Mai Mai dos Patriotas Resistentes Congoleses (Pareco), que se juntou em 2009 ao Exército nacional após um acordo de paz com o governo.
O coronel Vianney Kazarama, porta-voz das Forças Armadas da RDC (FARDC) em Kivu do Sul, negou que Kifaru estivesse envolvido nos estupros, e não fez mais comentários sobre esses crimes.
Mas as mulheres do vilarejo estão sofrendo em casa as consequências dos atos dos ex-rebeldes. Assim como outras vítimas, Adela, de 19 anos e mãe de um bebê de seis meses, sofre com o abandono e desprezo desde que confessou ter sido violentada pelos soldados.
- Meu marido já não aceita dividir a cama comigo. Durmo sozinha. Meu marido se nega a comer o que eu preparo. Come o que minhas irmãs fazem. Não entendo porque me trata assim.
Essas mulheres contam com o apoio de poucas pessoas, como os médicos, o chefe da aldeia, além delas mesmas.
“Desta vez acabou mal”
Em Nakiele, um povoado de 12.300 habitantes no topo de uma colina no território de Fizi, na província de Kivu do Sul, 121 mulheres procuraram médicos na noite de 11 de junho, afirmando que haviam sido violentadas por soldados e desde então sofrem o repúdio dos maridos.
Nesse mesmo dia, cerca de 150 soldados desertores chegaram à região no fim da manhã sob o comando de um coronel que já pertenceu a milícia Mai Mai. Os soldados fugiram.
Em outros povoados próximos, 127 mulheres também afirmaram terem sido estupradas pelos soldados.
Durante as sucessivas operações realizadas desde 2009 contra os grupos armados na região, os soldados vão de um povoado a outro exigindo comida, dinheiro, armas, entre outras coisas.
O chefe local de Nakiele, Losema Etamo Ngoma, explicou com agem os milicianos.
- Desta vez, pediram rações e uma cabra. Normalmente não tocam nas mulheres, mas desta vez acabou mal.
Quando o marido de Adela, Sifa, de 20 anos, voltou para casa na manhã do dia 12 de junho, ela contou que havia sido estuprada. Ele contou qual foi a reação do marido, enquanto amarrava e desamarrava mecanicamente o pano em que carrega o bebê junto ao corpo.
- Ele me disse que agora eu era uma mulher de militar, que eu deveria ir embora junto com os soldados e que não me queria aqui. Não entendo por que ele pensa assim.
“Tenho vergonha ao passar pelas pessoas”
Na República Democrática do Congo, o estupro ainda é um tabu. As vítimas se calam por medo de serem discriminadas pelos maridos, familiares e pela comunidade.
No entanto, essas mulheres tiveram a coragem de denunciar, destaca Eugène Byamoni, psicólogo que escutou cerca de cinquenta delas entre os dias 16 e 17 de junho.
- Houve um problema coletivo e a sensibilização de uma ONG que permitiu que elas contassem.
Dekila, de 28 anos, afirmou que seu marido disse a ela para "ir embora, que deixe sua cama".
- Tenho vergonha ao passar pelas pessoas. Sou alvo de críticas, de provocação, dizem que sou uma mulher de militar, portadora de doenças [sexualmente transmissíveis].
O psicólogo Byamoni disse que é preciso reunir homens e mulheres, sensibilizá-los, “explicar que a desgraça que ocorreu não é culpa das mulheres".
O chefe da aldeia diz que, desde que começou o problema dos estupros, reuniu um grupo de dez sábios para falar com esses homens, “para que ainda possam viver com essas mulheres, dizer que o que houve com as mulheres foi forçado, contra a vontade delas e que devem suportar".