O atual chefe da CIA, Leon Panetta, deve assumir em julho o cargo de secretário de Defesa dos Estados Unidos. Aos 72 anos, o democrata veterano da política americana substituirá Robert Gates, que vai se aposentar. Apesar da mudança, o novo líder do Pentágono não deve modificar a antiga política externa americana de segurança em relação às intervenções internacionais. Panetta, que é advogado, já trabalhou como chefe de Gabinete de Bill Clinton - onde aprendeu muito sobre política externa. Ele assumirá a Defesa americana em um momento crucial - de cortes no orçamento para a segurança e de retirada de tropas do Afeganistão e do Iraque.
"Panetta faz parte dos falcões, defende uma política de defesa bem contundente", afirma o professor de História da Faculdade Porto-Alegrense, Arthur Ávila, especialista em história dos Estados Unidos. Para ele, a secretaria de Defesa seguirá o plano de Estado que o presidente Obama definir - e por isso, o novo secretário será, assim como Gates, a favor da intervenção em outros países. "Panetta representa a mais alta burocracia de segurança nos Estados Unidos", disse Ávila.
Como líder da CIA, destaca o professor Ávila, "ele foi um dos que coordenaram a operação que capturou e matou Bin Laden" - o que aumenta seu prestígio para ocupar a liderança do Pentágono. Panetta foi nomeado ao cargo que ocupa atualmente com o objetivo de apagar da imagem da CIA as práticas de tortura que a manchavam, segundo a EFE. Como democrata, foi um crítico da tortura usada como mecanismo de interrogatório nos mandatos do ex-presidente George W. Bush.
"Os que apoiam a tortura podem acreditar que podemos abusar dos prisioneiros em certas circunstâncias e mesmo assim sermos fiéis aos nossos valores, mas isso é falso", disse Panetta em 2008 à revista Washington Monthly. "Ou bem acreditamos na dignidade do indivíduo, no império da lei e na proibição de castigos cruéis e incomuns ou não. Não existe meio termo", afirmou.
Leon Panetta foi recebido com receio na CIA em fevereiro de 2009 devido a seu pequeno conhecimento do mundo da espionagem. Apesar disso, foi premiado pelo presidente Barack Obama, que reconheceu sua habilidade na gestão da instituição, seu bipartidarismo e sua experiência com orçamentos e política externa - que Panetta aprendeu ao trabalhar como chefe de Gabinete de Bill Clinton, de 1993 a 2001.
O ex-congressista assumirá o Pentágono no mesmo mês da retirada das tropas do Afeganistão, e em um momento de cortes orçamentários da Defesa. Segundo a agência EFE, Panetta será mais receptivo aos cortes do que Gates - secretário de Defesa nomeado por Bush que Obama manteve no cargo ao ser eleito. Panetta também deverá estar à frente da Segurança quando for concluída a retirada total das tropas do Iraque.
Panetta na política
Filho de imigrantes italianos e nascido em Monterrey, na Califórnia, Panetta começou sua carreira política como republicano - mas mudou de lado após atuar no governo de Richard Nixon, em 1971, alegando que o Partido Republicano passara a trabalhar contra as leis do direito civil, afastando-se do centro. Sobre seu trabalho no regime de Nixon, Panetta escreveu o livro Bring us Together ("Una-nos", sem versão em português).
O democrata foi deputado pela Califórnia entre 1977 e 1993. De 1989 até o 1993, Panetta foi presidente do Comitê Orçamentário da Câmara de Representantes. Ele foi escolhido diretor orçamentário da Casa Branca em 1993, e um ano depois se tornou chefe de Gabinete de Bill Clinton. "Quando trabalhava no Escritório de Gestão e Orçamento da Casa Branca não tinha tempo nem para ir ao banheiro e agora não tenho tempo para comer, ou seja, tudo vai encaixando", brincou Panetta em entrevista à revista New Yorker em 1994, segundo a EFE.
Robert Gates
O atual secretário de Defesa dos Estados Unidos foi o primeiro a ser mantido no cargo por um presidente recém-eleito. Robert Gates, 67 anos, foi nomeado para o cargo no dia 18 de dezembro de 2006, depois que Donald Rumsfeld pediu demissão por se considerar culpado pela derrota do Partido Republicano nas eleições primárias daquele ano - ele havia sido apontado como o responsável por autorizar as torturas de presos no Iraque.
Antes de se tornar secretário de Defesa, Gates chefiou a CIA e dirigiu a Texas A&M University, a sétima maior universidade do país. O republicano foi responsável pela mudança de estratégia no Iraque, após ser nomeado para o cargo por George W. Bush, em 2006. Conhecido por seu pragmatismo, Gates ocupou cargos em todos os escalões da CIA, segundo a AFP. Na instituição, Gates passou 27 anos de sua carreira e serviu a seis presidentes, desde 1966.
Em seus últimos meses como secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates demonstrou sua preocupação com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - cujo futuro é "obscuro, senão sombrio", disse ele à AP. Em meio a críticas à falta de apoio financeiro por parte da Europa, Gates falou sobre o "envelhecimento" da organização, criada em 1949 para combater a União Soviética e seus aliados. Em pronunciamento, Gates emitiu um aviso explícito de que os membros europeus da Otan enfrentam a possibilidade de "irrelevância militar coletiva".