As cinzas de José Saramago repousam a partir deste sábado em Lisboa, sob a sombra de uma oliveira centenária oriunda de sua terra natal, a aldeia portuguesa de Azinhaga, um reencontro idealizado em sua obra "As Pequenas Memórias" e que chega no primeiro aniversário de sua morte.
Em um ato carregado de simbolismo, a viúva do escritor, Pilar del Río, enterrou suas cinzas em um pequeno jardim em frente à Casa dos Bicos, edifício histórico da capital portuguesa que abrigará a sede da Fundação José Saramago.
Diante de dezenas de cidadãos e autoridades, suas cinzas foram sepultadas acompanhadas de terra recolhida na ilha de Lanzarote (Canárias, Espanha), onde viveu seus últimos anos, e de seu livro "Palavras de uma cidade", uma carta de amor à Lisboa, onde se formou e desenvolveu seu pensamento.
"Um ano sem Saramago, não. Se completa um ano sem José. Saramago esteve mais presente do que nunca", disse neste sábado em declarações à Agência Efe a viúva do único autor de língua portuguesa premiado com um Nobel de Literatura.
Textos, conferências, um filme e novos livros sobre sua figura se sucederam ao longo de todo o ano. Seus versos podiam ser lidos neste sábado impressos em camisetas durante o enterro de suas cinzas, em um ato no qual também apareceram os cravos, símbolo da Revolução Portuguesa de 1974.
O caráter imortal da obra de Saramago também se refletiu no epitáfio gravado em um banco de mármore colocado ao lado da oliveira sob a qual repousam seus restos mortais, extraído da última página de seu romance "Memorial do Convento": "Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia".
Pilar lembrou que desde sua partida "ocorreram no mundo eventos - como o surgimento de movimentos populares críticos ao funcionamento do sistema político e as revoluções do Magrebe - que Saramago nos ajudou a entender" por meio de sua obra, especialmente com seu "Ensaio sobre a Lucidez".
"Ele não era um profeta nem um guru, apenas um homem que pensava, um intelectual que via a realidade. Sua frase era: ''Não nos resignemos, para fazer uso do poder que temos como cidadãos é preciso pensar, pensar, pensar...''", afirmou.
As homenagens se sucedem neste sábado por várias cidades de Portugal, mas também em outros países como México, Itália e Espanha, para lembrar Saramago 12 meses após sua morte, vítima de uma leucemia crônica que tirou sua vida aos 87 anos.
José Saramago foi considerado ainda em vida o maior nome da língua portuguesa contemporânea e também é conhecido por seu ativismo político - pertenceu ao Partido Comunista - e engajamento social.
Para este domingo está prevista outra homenagem na capital portuguesa, o espetáculo intitulado "As Sete Últimas Palavras de Cristo", no qual se mesclam a música de Joseph Haydn e os textos do escritor, que serão lidos por pessoas "anônimas" que têm em comum um passado de penúrias e sofrimento.
Na cerimônia de enterro de suas cinzas realizada neste sábado em Lisboa compareceram, entre outros, a ministra da Cultura portuguesa interina, Gabriela Canavilhas; o prefeito da cidade, Antonio Costa, assim como sua filha, Violante.
Saramago descansa agora para sempre ao lado de um dos símbolos de sua infância, as oliveiras de Azinhaga, o mesmo tipo de árvore que plantou no jardim de sua casa em Lanzarote.
Uma hora depois da cerimônia, as pessoas já se sentavam no banco de mármore colocado à sombra da oliveira, talvez à espera de ver, como lembrou Pilar, o lagarto verde que Saramago narrou em "As Pequenas Memórias".