Todo dia é Dia das Mães na Vara da Infância e Juventude da Penha, Zona Leste de São Paulo, onde cerca de 2.000 processos aguardam decisões que podem significar não apenas um novo lar, mas uma nova família para crianças abandonadas na capital paulista. “As mulheres sempre querem adotar. O duro é convencer os maridos”, diz o titular da Vara, juiz Paulo Fadigas.
Na Vara, não há homens solteiros interessados na adoção. “Hoje parece que apareceu um, mas preciso conferir”, sorri. “O que temos é um casal homoafetivo, de homens, que quer adotar. Mas só um. Casal de mulheres é mais frequente. Eu não vejo problema. Aqui eu aprovo tudo. Mas, calma, não é que eu simplesmente vou aprovar. É uma família como qualquer outra e vai ser avaliada. Mas o juiz tem que ser flexível, os tempos mudaram”, diz.
No país, segundo estimativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os homens solteiros representam apenas 1% dos interessados na adoção. O restante são casais e mulheres solteiras. O conselho ainda não possui dados sobre o perfil dos pretendentes, por isso, não informou o percentual de casais homoafetivos entre aqueles que buscam uma criança para adotar.
Para as mães que têm na adoção a única alternativa para ter um filho, o caminho ainda é longo. Alexandra Nascimento Resende, 35, revisora de textos, esperou 13 anos pela filha Lara, hoje com um ano e meio. Foram quase nove anos de tratamento para engravidar, sem sucesso. Depois, mais oito meses entre visitas, entrevistas, perícia, para se habilitar à adoção. “Pensei em desistir. É muita burocracia, uma invasão. Isso porque a gente não impôs muita restrição. Queríamos uma criança de até cinco anos. Depois de quase quatro anos na fila, recebi uma ligação dizendo que havia uma menina de cinco meses. Fiquei de perna bamba”, conta.
“O processo é assim porque a criança não pode ser rejeitada duas vezes”, esclarece Fadigas. Ao lado dele, três mães adotivas trabalham para conseguir o melhor lar para crianças em busca de uma família. Lúcia Rocha, 55, a psicóloga chefe da seção, adotou um bebê de cinco meses. Magaly Coscioni, 56, a assistente social responsável pelo cadastro na Vara, e que deu a boa notícia a Alexandra, adotou um bebê. E a assistente social chefe, Adriana Amorim, 53, há 20 anos ganhava um filho de nove. “Os homens parecem que têm receio por causa de trabalho. Mas as mulheres também agora estão começando a ter”, diz ela.
“Aqui, não procuramos uma criança para um casal, mas um casal para uma criança”, afirma ainda o juiz da Vara da Penha, que visita com frequência os 11 abrigos na região para fazer audiências, acompanhar as famílias. Além disso, realiza palestras para orientar os interessados no fórum. A plateia, segundo ele, é dividida entre casais e um terço de mulheres solteiras. “Eu já vi marido, ao me ouvir dizer que cuidar de criança é papel do casal, olhar com aquela cara para o lado”, conta.
Alexandra é uma das que teve de convencer o marido a adotar. “Ele não queria. A família dele que ajudou a convencer. Mas hoje ele é louco pela Lara.” Para o juiz, o perfil predominantemente feminino é um reflexo da sociedade atual. “Na nossa cultura, o homem é criado para não ter que se preocupar com essa questão de filhos”, afirma. “A própria criança pede uma mãe”, completa Magaly. “Tivemos um caso aqui que a criança rejeitou ser adotada por apenas o pai.”
Boom de interessados
A maioria das crianças à espera de adoção na capital paulista está fora de casa por abuso por parte dos pais, padrastos ou avôs. Muitas delas também foram abandonadas pela mães, quase sempre viciadas em crack. No dia em que o G1 esteve na Vara da Penha, uma delas, presa, acabara de deixar a sala do juiz Fadigas, onde foi ouvida algemada. Não queria perder o filho e foi exercer seu direito de defesa. A adoção também esbarra no desejo dos casais que, em sua maioria, ainda procuram bebês, da raça branca. “Adoção tardia é coisa rara, mosca branca”, diz Lúcia.
Há períodos, porém, que filas se formam nas portas nas Varas da capital. “É quando aparece na televisão esses casos de crianças abandonadas em caçambas, em hospital. Aí chove pai pelo ladrão. Outro dia o Fantástico fez uma reportagem, veio um monte de gente. Mas aí, você analisa, nenhum casal passa. Eles têm que ver que criança não é um objeto”, afirma o juiz. “Tem até gente que vem adotar com a promessa de ter um filho natural”, complementa Lúcia.
Histórias como a da mulher que abandonou um bebê de 10 dias em uma caçamba no bairro do Ipiranga se acumulam no fórum. “Tivemos aqui uma mãe que deu à luz no hospital com o nome falso. Sete meses depois, o pai encontrou a criança, e agora a mãe veio pedir a guarda de volta. Aí a criança saiu da fila da adoção. Mas aqui é quase tudo assim, só vem desgraça”, diz Fadigas. “Os abrigos estão cheios, não de bebês de olho azul, mas de crianças de 11, 12 anos, negras. Então não adianta querer adotar porque viu na televisão. Tem que querer e estar preparado.”
Para o magistrado, apesar do preconceito ainda existente, o processo de adoção no país evoluiu. “As leis mudaram. O Brasil está muito evoluído nesta parte. A Vara aqui é, antes de tudo, preventiva. Não é mais aquela visão paternalista, de que a decisão é só do juiz e acabou. O trabalho é de todos, desde a família. Mas o nosso trabalho continua sendo importante. O juiz aqui decide rumos, tem uma função social muito grande. É uma decisão que não tem volta.”