Uma quadrilha internacional de tráfico de drogas desarticulada nesta quinta-feira utilizava uma logística inédita para a Polícia Federal (PF). De acordo com o delegado Ivo Roberto Costa da Silva, os suspeitos, em lanchas, levavam a droga até os navios dentro de mochilas impermeáveis e tripulantes da embarcação "pescavam" os pacotes para dentro.

A Operação Niva, responsável por prender 16 suspeitos de integrar o grupo de maioria sérvia nesta quinta-feira, foi detalhada por Silva na superintendência da PF em São Paulo. Líder das investigações nos últimos dois anos, o delegado afirmou que os suspeitos cooptavam tripulantes de navios de cargas e de cruzeiro para embarcar a droga. "Podemos dizer que foi a primeira investigação da PF em que nós vimos esse embarque da forma 'pescada'", disse Silva.

Os portos mais utilizados pelo grupo eram de Santos (SP), Paranaguá (PR), Navegantes (SC) e Rio Grande (RS), além de alguns no Nordeste. A droga, afirmou Silva, vinha da Bolívia por meio aéreo ou terrestre. No País, ela era armazenada em residências e distribuída por brasileiros e seguia ao exterior, basicamente para a Europa. "O embarque da droga no mar dificultava muito a investigação da PF, mas também o fato de ele ser feito de madrugada."

Além do embarque com lanchas, outra maneira de a droga entrar na embarcação era por meio dos próprios tripulantes. Ao chegarem nos portos brasileiros, os empregados desciam dos navios e voltavam com a droga escondida nas vestes ou misturada a cereais e outros produtos. De acordo com Silva, "há dificuldade de fazer o controle de embarque de tripulantes".

O suposto líder do grupo foi preso no domingo em uma residência em Bauru (SP), a 331 km da capital do Estado. De nacionalidade sérvia, o suspeito estava no Brasil havia cerca de 2 anos e já teve ligações com a máfia em seu país de origem. De acordo com a PF, ele era procurado na Sérvia por tráfico de drogas, principalmente heroína, e roubo de carros, além de estar na lista da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol). O suspeito teria também uma base na Argentina. Utilizava quatro identidades falsas - duas sérvias, uma brasileira e uma argentina. Ele está detido na superintendência da PF em São Paulo, onde vai responder a inquérito, e só depois será extraditado para seu país.

A PF afirmou que alguns membros do grupo eram muito difíceis de encontrar porque voltavam ao Brasil com passaportes e identidades falsas, fáceis de encontrar fora do País. "Nós nunca sabíamos como eles retornariam ao País. Um dos investigados que também foi preso entrou no Brasil cinco vezes com documentação falsa", disse Silva. Nesta quinta-feira foram presos 16 suspeitos: sete em são Paulo, dois no Espírito Santo, dois no Amazonas, três no Paraná, um no Pará e um em Rondônia. Outros 15 estrangeiros que tiveram mandado de prisão emitido nesta quinta-feira estão no exterior.

Nas ações desta quinta-feira foram apreendidos 31 imóveis, 15 veículos de luxo e três embarcações, que totalizariam um valor aproximado de R$ 16 milhões. Ao longo dos dois anos de investigação foram detidas 47 pessoas, apreendidos 620 kg de cocaína e aproximadamente R$ 2 milhões ligados ao grupo. A PF crê que com a prisão do líder vai inibir ações parecidas.