Benghazi (Líbia), 4 mai (EFE). - O anúncio do procurador-geral do Tribunal Penal Internacional (TPI), Luis Moreno Ocampo, de que a corte pedirá a prisão de três cidadãos líbios por crimes contra a humanidade aumenta a pressão sobre o regime de Muammar Kadafi, cujas forças voltaram nesta quarta-feira a bombardear a cidade de Misrata.
Cinco civis morreram em um ataque de artilharia pesada sobre a área do porto, informou Ahmed Omar Bany, porta-voz das Forças Armadas rebeldes, criadas no leste da Líbia, controladas pelos insurgentes desde o final de fevereiro.
"Cinco corpos foram levados aos hospitais, mas poderia haver muitos mais que não podem ser resgatados das ruas", disse Bany em entrevista coletiva em Benghazi.
O responsável militar afirmou que Misrata está há mais de uma semana sob intenso bombardeio e totalmente bloqueada devido aos ataques das tropas de Kadafi contra o porto - única via de acesso à cidade - e à instalação de minas marítimas por parte de navios do regime de Trípoli.
"As tentativas de bloquear o fluxo de ajuda humanitária a Misrata poderiam constituir crimes contra a humanidade", destacou o porta-voz dos rebeldes líbios.
Nesta quarta-freira, chegou ao porto de Misrata a primeira carga de ajuda humanitária dos últimos quatro dias, já que os navios não conseguiam se aproximar da cidade devido à violência e à ameaça das minas, que estão sendo desativadas por soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Por sua vez, o vice-presidente do Conselho Nacional Transitório (CNT) líbio, Abdel Hafid Ghoga, celebrou o anúncio do procurador-geral do TPI e considerou que a decisão confirma "os crimes do regime de Kadafi que incluem os ataques contra alvos civis, como mesquitas e hospitais, e o uso de armas proibidas e letais contra a população".
Ocampo anunciou nesta quarta-feira perante o Conselho de Segurança da ONU que irá pedir mandados de prisão "contra indivíduos que possuem maior responsabilidade nos crimes contra a humanidade cometidos em território líbio", mas não revelou a identidade dessas pessoas.
"Todos sabemos quem são estes três indivíduos e de quem (Ocampo) está falando", disse Ghoga em Benghazi.
O vice-presidente rebelde não esconde que um deles seja o próprio líder líbio, Muammar Kadafi, porque "é o chefe das Forças Armadas e ele é quem está dando as ordens para atacar os civis".
Além disso, "há outros indivíduos que poderiam ser incluídos nas categorias especificadas por Ocampo, como seus filhos e pessoas de seu círculo mais próximo", acrescentou o representante do CNT.
Perguntado pela Agência Efe, Ghoga disse que o anúncio de Ocampo pode levar a Otan a aumentar suas operações na Líbia para tornar mais efetiva sua missão, "que é a de proteger os civis, que continuam sendo atacados".
Além dessas novas expectativas criadas pelo anúncio do procurador-geral do TPI, o movimento rebelde de Benghazi tem agora mais uma vantagem sobre o regime de Trípoli, que perdeu o apoio da Turquia após o Governo de Ancara pedir nesta terça-feira a saída de Kadafi da Líbia.
"Sempre acreditamos que a Turquia, cedo ou tarde, apoiaria o povo líbio e nossa causa pela liberdade", declarou Ghoga. "A Turquia é um ator importante na região e seu apoio será, sem dúvida, uma destacada ajuda a nós para se conseguir uma solução ao conflito", acrescentou.
A Turquia, que até esta terça-feira havia se mostrado neutro no assunto para tentar mediar o conflito entre as duas partes, faz parte da Otan, mas se opõe aos bombardeios contra a Líbia.
O secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, defendeu nesta quarta-feira acumular "toda a pressão internacional" contra o regime líbio, usando todo tipo de medida.
"Acho que seria uma proteção para os civis na Líbia se Kadafi fosse forçado a renunciar", afirmou Rasmussen. Para ele, "é difícil imaginar" que a ameaça sobre a população líbia desapareça enquanto o coronel permanecer no poder.
O CNT, que atua como Governo "de facto" no leste da Líbia, está disposto a ampliar o número de seus membros e incluirá representantes de cidades que ainda não integram seu Executivo, cujo objetivo é representar toda a Líbia, também as áreas controladas pelo regime, e comandar o país na transição rumo à democracia, segundo seus dirigentes.
Ghoga anunciou nesta quarta-feira que o comitê de crise, órgão executivo do CNT, também será ampliado para um total de 14 pastas, cujos responsáveis serão nomeados nos próximos dias. EFE fl/sa