Jamais fomos pacíficos!
A violência epidêmica que hoje nos acomete é reveladora de uma face que durante anos negligenciamos: a que mostra Alagoas como um estado colérico.
E ela é o reverso do mito de uma Alagoas cordial, “mitológica” nada ingênua e que se assemelha às tolices dos slogans publicitários da “Terra da Liberdade” ou do “Berço da República”.
Índios e negros foram dizimados em nosso passado centenário. Os marechais aqui somente nasceram. A opressão ainda nos cala.
Nosso currículo de crimes e atrocidades permeia e mancha nossa história, legado impossível de esquecer e que a qualquer novo ato está à mão para ser lembrado. E o é.
O fato novo de duas décadas para cá, ou da década atual – fora a principal multiplicação numérica vertiginosa nas estatísticas de criminalidade – é que a violência se democratizou, passou para o “andar de cima”, como no dizer de E. Gaspari.
Isto considerando que nosso prédio é, em verdade, um sobrado acabado na parte superior e insalubre no subsolo habitado pela miséria. Ou melhor, uma casa com porão abandonado e abarrotado daquilo que os moradores da parte superior fingem em esquecer.
O que era uma realidade restrita a nossas periferias sangrentas passou a acometer, com mais frequência, as áreas mais “protegidas” de nossas cidades. Exemplo: o crime da grota pouco ocorria na orla.
Na última década passamos a ter como corriqueiros os assaltos, o tráfico, os homicídios e toda sorte de violentações à beira mar. Antes estes lá estavam, mas eram sublimados pela classe média como “coisa de pobre”.
Hoje esta sublimação, por mais que muitos ainda a realizem, não é mais possível de todo, nem com tanta simplicidade, nem com tanto cinismo.
Ter restaurantes invadidos na Ponta Verde, homicídios em nível de Iraque nos demais bairros ou carros arrombados na área nobre do Farol poderia ser uma oportunidade para revisar esta visão torta de nossa história recente, de que vivíamos em um paraíso artificial de segurança, de irrefreável valor à vida.
E que, somente agora, esta ilha da fantasia sofreria efeitos ilusoriamente contornáveis a curto ou médio prazo com polícia na rua, em essencial.
Jamais Fomos Pacíficos!
05/05/2011, 08:42 - Clayton Santos
Por Clayton Santos
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