No 1° de Maio, festa e protesto, dos produtores rurais
Goretti Brandão
Estive no Piau, povoado que pertence a cidade de Piranhas, para acompanhar os festejos do Dia do Trabalhador. Um dos eventos aconteceu no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde sertanejos - com dívidas rurais -, discutiram quais medidas serão tomadas para chamarem a atenção do governo, de modo que este se posicione em favor dos agricultores. A alta e abusiva taxa de juros aplicada pelos Bancos tem dado muita dor de cabeça aos pequenos e médios produtores rurais.
O homem do campo está vendendo parte de suas propriedades, que vêm sendo executadas, para saldar seus débitos, e que como se não bastasse, ao fazê-lo, ainda continua devendo. Situação insustentável e que mostra o quanto os devedores vêm sofrendo com essas penalidades injustas. O valor cobrado pelos Bancos aumenta de forma exorbitante. Desse modo fica impossível para o agricultor se livrar das dívidas rurais.
Foi no sindicato, um modesto salão onde cabem cem pessoas sentadas, que tive a oportunidade de conhecer uma mulher simples, mas especial. Alegre, Maria Francisca da Silva Alcântara é uma daquelas militantes, cuja atividade dentro do sindicato, onde representa as mulheres trabalhadoras do campo, além de questões comuns a homens e mulheres agricultores, está centrada em questões específicas femininas: salário maternidade, saúde, o problema da violência contra a mulher, moradia.
Saber o que mulheres como Francisca pensam, e como enfrentam a vida, é uma oportunidade que não se pode perder. Numa conversa de pouco mais de meia hora, pude perceber as preocupações de uma trabalhadora do campo. Preocupações que vão desde a evasão das famílias para a cidade, até a permanência e moradia dessas pessoas, que ao saírem da zona rural em busca de uma vida melhor, terminam morando miseravelmente em favelas. A sempre questão pertinente, e que é um acontecimento constante. “Lugar de agricultores é no campo”, diz ela.
Depois sai pontuando quase de um fôlego só, inúmeros problemas que dificultam a vida da mulher do campo. Segundo Francisca, o Conselho Municipal de Saúde é devagar. Com esse adjetivo ela evoca a situação de várias agricultoras que se encontram vítimas de doenças graves, e como exemplo do estado precário de saúde, ela fala sobre mulheres dos povoados que ficam na região de Piranhas, que precisaram remover cânceres e que por não puderem permanecer na capital, são obrigadas a voltar para casa antes do tempo.
A cada retorno para tratamento, as pacientes precisam ter dinheiro para os gastos com viagem, estadia e não tem possibilidade para isso. Muitas dessas mulheres acabam deixando, ainda segundo Francisca, de continuar o tratamento. Também, sobre o medo que as mulheres têm de denunciar a violência que vêm sofrendo, foi um dos assuntos abordados por ela.
Enquanto escutava aquela mulher, destemida, falante, cumprindo o seu papel de representante das mulheres, e principalmente das pobres mulheres do campo, que enumerava em quase caráter de denúncia, a situação por qual elas passam, lembrei de um poema que se chama Resumo, da escritora mineira Adélia Prado, onde ela coloca em poucas palavras, a situação de uma mulher que tem câncer e espera a morte, resignada.
A fibra de Maria Francisca, mulher simples e de pouco estudo, sem poder, sem comando, sem cargo público, mas com uma consciência feminina e de coletividade, foi o que, naquele e nos momentos seguintes, mais me orgulharam em ser mulher. Assim como a desesperança dessas mulheres doentes, é o que mais doeu e dói, até agora em mim.
Novamente retorno à Adélia Prado, que em outro poema seu: Ensinamento, sabiamente fala: “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento”. Essas palavras caem bem para mulheres como Francisca.