Pelos campi, pelas faculdades, pelos ambientes acadêmicos, uma mudança radical na indumentária dos estudantes é indicativa de um mal estar.

Não sejamos nostálgicos quanto a uma ausente rebeldia dos “sessenta”, nem resmunguemos contra uma suposta falta de “engajamento” (termo há muito sem sentido na e para com a juventude) dos universitários do hoje.

O mais chocante é que eles não chocam. Não constrangem. Não incitam. Eles, os fardamentos e uniformes.

O uso de fardamentos e uniformes por alunos e alunas do ensino superior seria inocente, se não fosse acintoso.

São camisetas, em geral, nomes de cursos de graduação estampados no peito (e até pós-graduação: “ Economia”, “Comunicação Social”, “Engenharia”, “Mestrado em...”...

E o argumento da “economia” de tecido, ou praticidade da vestimenta, não se sustenta.

Fardamentos e uniformes são instrumentos de repressão, padronização e controle. Há muito já se sabe disso, há muito esta constatação já foi feita. São mecanismos de rédeas do desejo e de freio da emancipação.

Eles comunicam que a pulsão deve ser coibida. Assim, os subalternos são vestidos de modo padrão, já que devemos desejar os comandantes, e não os comandados (o gerente e não o garçom, o diretor e não o faxineiro). Até regimes firmados na imposição aleatória como os militares distinguem seus fardamentos (vestes de praças e oficiais se diferenciam e hierarquizam a atração, a sede de mobilidade e a inveja, esta travestida de “concorrência promocional”).

Resistir ao uniforme é um ato de reivindicação libertária em simbologia (não à toa existem ações e denominações do tipo “turma do pijama”, “deixar a batina”, “nobreza togada”, "perder a farda"). E adaptar-se ao uniforme torna-se um gesto de subserviência e comiseração, consciente ou inconscientemente, praticado por muitos "universitários".

Aí é que constatamos que nosso ensino superior público e privado forma acriticamente. Se no maio de 68 os estudantes foram à rua contra o sistema, hoje eles se acomodam e se moldam à mensagem institucional e conformista. Mesmo que alguns, por desculpa tola, vejam nisso somente um sinal de identidade de grupo ou de sentimento de pertença a uma comunidade de determinada de estudantes (incluamos aqui as bolsas e pastas com nome estampado em letras garrafais: PÓS-GRADUAÇÃO de faculdade privada).

Há pouco tempo o aluno liberto do julgo da educação básica (sim, as escolas são castradoras, há muito também já se sabe disso...) via na faculdade a oportunidade de liberação. E um dos sinais desta “autonomia” era jogar fora a camiseta do colégio.

Mas acontece o contrário. Cursar graduação, para muitos, representa enquadrar-se no modelo padrão de senso comum “científico e acadêmico”, superior. Sai uma camiseta, entra outra.

O tema não é nostalgia. Mas saudades do visual hippie, descontraído, debochado e livremente, por vezes, descamisado.