Duas semanas atrás, ÉPOCA revelou segredos dos e-mails do consultor Roberto Figueiredo do Amaral – o ex-diretor da construtora Andrade Gutierrez que trabalhou, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, para o Opportunity, a marca dos fundos de investimento comandados pelo financista Daniel Dantas.

As mensagens de Amaral a que ÉPOCA teve acesso foram enviadas entre 2001 e 2002, período em que ele assessorava Dantas na maior disputa societária da história do capitalismo brasileiro: a briga do Opportunity contra fundos de pensão e sócios estrangeiros pelo controle de empresas de telefonia.

Elas revelam detalhes de como Amaral trabalhava e de como ele conduzia a defesa dos interesses de seus clientes. Vários dos e-mails eram endereçados aos ajudantes de ordens do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC negou a ÉPOCA tê-los recebido). Um outro personagem também chamou a atenção dos investigadores da Polícia Federal. Eles suspeitam que alguns e-mails eram dirigidos ao secretário particular de José Serra, então candidato à Presidência da República pelo PSDB.

Os e-mails foram apreendidos na casa de Amaral em dezembro de 2008, no curso da Operação Satiagraha. Desencadeada para investigar acusações de crimes financeiros contra Dantas e o Opportunity, a Satiagraha gerou um sem-número de controvérsias e diversas provas recolhidas na investigação foram questionadas pelos réus.

A autenticidade das mensagens de Amaral foi atestada por uma perícia da PF e, desde junho de 2009, elas estão na Procuradoria-Geral da República, para onde foram remetidas pelo Ministério Público Federal em São Paulo, por conter alusões a autoridades com foro no Supremo Tribunal Federal. O procurador-geral Roberto Gurgel deverá decidir se há nelas indícios que justifiquem a instauração de uma nova investigação policial.

O advogado de Amaral, José Luiz de Oliveira Lima, afirma que seu cliente não discute o conteúdo dos e-mails, pois eles teriam sido apreendidos de forma ilegal, “desprezando princípios processuais e constitucionais”. No momento, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) discute a legalidade das provas obtidas pela PF na Satiagraha.

Ao analisar os e-mails, a PF e o Ministério Público Federal de São Paulo concluíram que Amaral recorria a codinomes e a mensagens cifradas para evitar a identificação de seus interlocutores. Segundo escreveu o procurador da República Rodrigo de Grandis, em denúncia aceita pela Justiça, Dantas era tratado por Amaral como “DD”. (Dantas negou, por meio de sua assessoria, ter sido autor dos e-mails.) Quando escreve a – ou sobre – Andrea Matarazzo, o então embaixador do Brasil na Itália, Amaral sempre se refere a ele como “Conde” (leia as mensagens ao final do texto) .

Um outro nome frequente é “Niger”, em geral associado a e-mails enviados ao endereço [email protected]. Trata-se, de acordo com os investigadores da PF, do endereço eletrônico que era usado por Luiz Paulo Alves Arcanjo, secretário particular e motorista de Serra. Nos e-mails remetidos por Amaral a [email protected], ele escreve como se falasse diretamente com Serra, menciona assuntos de interesse de Dantas e exige providências no âmbito do governo em relação a eles.

Serra negou a ÉPOCA, por escrito, ter recebido ou tomado conhecimento desses e-mails. Não há nenhuma prova de que ele tenha intercedido em favor das pretensões de Amaral. Em duas ocasiões, porém, as ações do governo FHC coincidiram com essas pretensões.

ÉPOCA –Os e-mails mostram que Amaral se correspondeu, entre 2001 e 2002, com Luiz Paulo Arcanjo, seu assessor há muitos anos.
José Serra – A pauta é surrealista: uma suposta troca de e-mails que só têm o remetente. As perguntas são maliciosas pela simples enunciação. Passados oito anos de governo do PT, é inexplicável as perguntas referirem-se a 2002 e Fernando Henrique. Se os fatos descritos são do final de 2002, cabe apuração junto ao governo Lula. Eles é que podem esclarecer como os fatos se desenrolaram.

ÉPOCA –Os e-mails enviados por Amaral a Arcanjo eram escritos como se fossem endereçados ao senhor. Arcanjo atuava como seu intermediário nas comunicações com Amaral?
Serra – Numa campanha eleitoral, milhares de e-mails, cartas, bilhetes e faxes são enviados a assessores, assistentes e secretários de candidatos. Receber eventuais mensagens não os torna intermediários de nada.

ÉPOCA –Qual é a relação do senhor com Roberto Amaral?
Serra – Social.

ÉPOCA –Por que Amaral discute nesses e-mails a intervenção na Previ?
Serra – É outra pergunta estapafúrdia. Nunca recebi tais e-mails. Também nunca conversei com ele sobre o assunto, a respeito do qual, aliás, nunca tive conhecimento.

ÉPOCA –Como esses e-mails eram respondidos?
Serra – Não eram respondidos porque nunca foram recebidos.

ÉPOCA –Quais são as funções exercidas por Arcanjo como assessor?
Serra – Arcanjo não tem e nunca teve a função de intermediar e-mails, recados e pleitos de quem quer que seja.