"Prefiro muito mais que alguém passe o carro para quem não bebeu do que ser multado e perder 7 pontos na carteira”, disse Aécio Neves (PSDB), em julho de 2009, no lançamento de uma campanha de incentivo ao cumprimento da Lei Seca. Na ocasião, Aécio ainda era governador de Minas Gerais. Na mesma entrevista, ele defendeu também o teste do bafômetro como “uma forma de educar com um pouco mais de vigor”. Dois anos atrás, essas citações pouco repercutiram. Eram só algumas colocações previsíveis de um político que divulgava um programa estatal.
Depois da madrugada do último domingo, porém, as frases de Aécio foram relembradas e ganharam nova importância política: o senador, recém-nomeado líder da oposição no Congresso, foi parado numa blitz numa das mais tradicionais esquinas do Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. Eram 3 horas da manhã – e Aécio estava na companhia de sua namorada, a modelo catarinense Letícia Weber. Como a carteira de habilitação de Aécio estava vencida, o documento foi retido por um dos policiais da operação. Apresentado ao bafômetro, Aécio se negou a fazer o teste, que consiste num sopro voluntário num aparelho portátil. O Land Rover que dirigia, registrada em nome de uma emissora de rádio de Minas Gerais controlada por Andréa Neves, irmã do senador, foi levada embora por um amigo, chamado especialmente para isso. Numa entrevista ao jornal O Globo, Aécio reconheceu que errou ao “não ter checado” o vencimento de sua carteira. Ele disse também que achou “desnecessário” fazer o teste do bafômetro, já que havia conseguido outro motorista para levar seu carro embora.
Por conduzir com a habilitação vencida, considerada infração gravíssima, Aécio foi punido com 7 pontos na carteira e multado em R$ 191,54. A recusa em se submeter ao bafômetro, outra transgressão gravíssima, resultou em mais 7 pontos na carteira e R$ 957 de multa. Os 14 pontos e os R$ 1.200 a menos na conta bancária podem ser o menor dos prejuízos de Aécio com o incidente. Seus aliados políticos sabem que o episódio carrega perdas potenciais bem maiores. Parece evidente que a situação embaraçosa não será facilmente esquecida por eventuais adversários em futuras disputas eleitorais. Uma lástima para quem é lembrado hoje como a principal opção do PSDB à sucessão da presidente Dilma Rousseff em 2014, já que o comportamento de Aécio não parece condizente com a liturgia exigida para a Presidência da República.
Há muito tempo, a badalada vida noturna de Aécio preocupa seus aliados no PSDB e suscita uma interrogação sobre seu futuro político: Aécio terá a disposição de abdicar das baladas em troca do projeto de alcançar o Palácio do Planalto? A perguntas desse tipo, Aécio costuma responder que não tem fixação em chegar à Presidência e que é “um homem do seu tempo”. A resposta é interpretada como um sinal de que Aécio não pretende abrir mão de suas escapadas mundanas, principalmente em seu habitat preferencial, a Zona Sul do Rio de Janeiro, cidade onde ele morou dos 9 aos 22 anos. “Se gostar do Rio for um defeito, em mim ele só fará crescer”, costuma dizer Aécio.