O mundo demorará pelo menos dois anos para conhecer em profundidade os efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente causados pelas emissões radioativas do acidente na usina nuclear de Fukushima, no Japão. A afirmação partiu do Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica (Unscear) nesta quarta-feira (6) em Viena, na Áustria.
Para o presidente do comitê, Wolfgang Weiss, a "situação nos reatores [de Fukushima] ainda é instável e ninguém sabe o que acontecerá amanhã".
- Temos muitas informações, mas nem sempre a que gostaríamos de ter.
Weiss anunciou que o Unscear iniciará um programa de avaliação, com especial interesse nos trabalhadores que tentam controlar o problema da central nuclear e que receberam uma alta carga de radiação.
Além disso, serão analisados possíveis problemas na tireoide no caso de crianças, uma questão na qual Weiss reconheceu que "há risco". Ele ressaltou ainda que os testes realizados pelas autoridades japonesas até agora mostram que nenhuma criança foi submetida a um nível de radiação superior ao "aceitável".
O secretário da Unscear, Malcolm Crick, explicou à agência de notícias Efe que dentro de dois anos será possível ter uma visão completa dos efeitos do acidente de Fukushima. Crick esclareceu que os níveis de radiação emitidos por Fukushima são baixos e que ainda não é possível prever se trará prejuízos à saúde humana. O funcionário do Unscear descreveu Fukushima como um "Chernobyl em câmara lenta", em que a radiação é menor, mas o período de emissão mais longo.
Em relação à gravidade do ocorrido em Fukushima, Weiss afirmou que se encontra abaixo do desastre de Chernobyl, em 1986, na extinta União Soviética (atual Ucrânia), mas acima do ocorrido na usina de Three Mile Island (EUA), em 1979.
- Não é tão dramático quanto o de Chernobyl, mas é claramente muito mais grave que o de Three Mile Island. Está no meio, mas ainda não sabemos em qual nível. E ainda não acabou. É uma crise que ainda está em andamento.
Desastres com energia atômica mataram 46 pessoas em 60 anos
O número de mortes relacionadas diretamente com acidentes nucleares durante os últimos 60 anos foi 46, de acordo com relatório publicado nesta quarta em Viena pela ONU (Organização das Nações Unidas). O dado, entretanto, exclui as vítimas do desastre de Chernobyl, cujas estimativas calculam a morte de outras 47 pessoas.
O cálculo foi realizado pelo Unscear em um relatório que explica o registro de 32 acidentes mortais entre 1945 e 2007 e que causaram ferimentos em 623 pessoas.
O relatório assegura que o uso de radiação no diagnóstico médico foi nesses anos a principal causa de acidentes. O documento da Unscear diz que "é provável que não se tenha informado sobre algumas mortes e muitos feridos no uso médico da radiação".
- Erros humanos, distração, erros na aplicação de procedimentos e guias de segurança, equipes e consertos defeituosos, formação inadequada, perda de controle e abandono de fontes [radioativas] provocaram acidentes nos últimos 60 anos e, provavelmente, os causarão no futuro.
As 46 mortes mencionadas pelo Comitê estão relacionadas com fatos em usinas nucleares, instalações com armas atômicas, uso de raios X e perda e roubo de materiais radioativos. O relatório também informa que, nas últimas seis décadas, ocorreram 203 acidentes atômicos, o que dá uma média de três por ano.